Carlos Lyra 'envia' uma carta ao poetinha...

[19/OUT/2003]

Oi, parceirinho, como vão as coisas por aí? Pra começar, feliz aniversário! Aqui todo mundo está celebrando você de todas as maneiras possíveis. Damos entrevistas pra tudo que é jornal, rádio e televisão. As pessoas demonstram grande carinho pela memória de seu poeta. Engraçado, me lembra Marlon Brando nas seqüências do Poderoso chefão: mesmo não aparecendo, a presença é marcante. Fora o aniversário, continuo falando de você em todos os shows e, naturalmente, cantando nossas musiquinhas. Lembra do Pode ir? Aquela que tinha uma extensão difícil de ser cantada? Fiz umas modificações nela, ficou ótima e já foi gravada pelos Cariocas, Wanda Sá, Leila Pinheiro, Leny Andrade e Miúcha. Eu mesmo gravei com a minha filha para o próximo disco.

A coisa da música anda mais ou menos por aqui. Aliás, aquela melancolia que detectei em você quando fiz seu horóscopo parece fazer parte indissolúvel da nossa cultura. Isso me faz lembrar de você naquele bar em São Paulo quando me disse: “Parceirinho, não acredito mais em arte, não...” Na hora fiquei chocado, mas recentemente entendi o que você queria dizer. Muito diferente dos anos 60. Por falar nisso, desde nosso Juscelino que não me sinto tão satisfeito com um presidente.

Você faz falta aqui. Tom e Baden também. Não se esqueça de dar um grande abraço neles. No mais, quero me despedir repetindo o adendo que fiz por minha conta para o teu Samba da bênção: “Aonde você estiver, a bênção, Vinícius, parceirinho querido, você que disse na poesia tudo o que a minha música havia sentido.”

Abraço carinhoso do amigo e parceiro,

Carlos Lyra

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