Domingo, 3 de Junho de 2001
Um prato cheio

Para Gerald Thomas, que dirige Gianecchini, e para quem o assiste na rua: pedalando do Leblon à Lapa, jogando vôlei em Ipanema, tomando açaí por aí

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

André Lobo
Reynaldo Gianechinni

Aviso: "Quem for ao teatro procurando o galãzinho vai se decepcionar"

A atriz Paula Burlamaqui, cheia de dúvida e angústia, esperou um intervalo do ensaio de O príncipe de Copacabana, de Gerald Thomas. Chegou discretamente perto do colega de elenco e perguntou. Com toda sinceridade:

''Bicho, você tá entendendo alguma coisa?''

Reynaldo Gianecchini, que faz o próprio príncipe na peça, um ator que já enfrentou outras montagens de vanguarda em São Paulo, uma delas com o longuíssimo Zé Celso Martinez Correa, parecia que estava esperando por aquilo. Ufa! Não estava só.

''Estou inteiramente perdido, Paula.''

Tem dias que Reynaldo Gianecchini, o top-model que saiu das passarelas para ser o médico Edu da novela Laços de Família, pega a bicicleta Calói alumínio, de cor prateada, e vai pedalando do apart-hotel em que está morando, no Leblon, até a rua Manoel Carneiro, na Lapa, onde tem aulas de canto com Tito Olivares. Tarde dessas levou uma fechada, caiu no chão e sofreu alguns arranhões. Acontece. As ciclovias cariocas são pouco civilizadas, ainda mais para um paulista do interior que está passando sua primeira temporada fixa por aqui. Mas tudo bem. Em São Paulo, a mulher do ator, a jornalista Marília Gabriela, foi assaltada duas vezes nos últimos dois meses. Revólver na cara. Um horror.

Gianecchini acariocou-se rápido e não reclama dos problemas da cidade. Pelo contrário. Pratica esportes na praia e tem curtido um açaí maneiro no Bibi Sucos, da Ataulfo de Paiva. Sem problemas. Aventura, no bom sentido, claro, é trabalhar com o imprevisível Gerald. O príncipe de Copacabana deve estrear na próxima sexta-feira, dia 8. Quarta-feira passada o texto não estava pronto. Ainda não deve estar. Acontece. Depois de um mês de ensaios Gianecchini, e Paula, perceberam que no ''Processo Gerald'' nada passava por uma compreensão linear das coisas desse mundo. E, sabe de uma coisa, relaxaram.

''É uma coisa louca trabalhar com o Gerald'', diz Gianecchini, já integrado aos improvisos da Companhia do Gelo Seco que o diretor comanda. ''Ele analisa as idéias que partem do grupo e vai trabalhando em cima, adaptando umas coisas, jogando outras fora. Sente o rumo que pode tomar e vai encenando. O ator fica sem base, dá uma ansiedade incrível. Quando você vê, o Gerald vem com uma coisa genial que fugiu completamente da idéia inicial. Agora não me pergunte o que virou a peça. Inclusive porque ela ainda não está completa. Isso é o mais interessante e ao mesmo tempo assustador do trabalho com o Gerald.''

De início seria uma adaptação de Hamlet. Diogo Vilela foi mais rápido no gatilho e montou o seu no Centro Cultural Banco do Brasil. Gianecchini deu a idéia de uma reflexão sobre a mídia. Gerald repicou: uma peça que falasse de alguém que, ao ser exposto na mídia, sofresse as conseqüências mais radicais dessa exposição em sua vida. Nada mais nada menos que a história do próprio Gianecchini, um moreno alto, bonito e sensual que, modelo, vivia de um lado para o outro das passarelas até que apareceu no horário nobre da Globo chicoteando línguas, cometas zunindo no céu da boca, despejando lábios à dentro de Vera Fischer os beijos mais quentes da história da televisão brasileira. Aí, como ele próprio diz, foi um turbilhão.

''Teve um momento durante Laços de família que eu achei não que ia pirar, mas me questionei se valia a pena aquela coisa de ser devastado na sua intimidade, qualquer um falar o que fosse de você. Qual era o sentido daquele turbilhão em que me meti.''

No final da semana passada, Ginanecchini acompanhou Marília Gabriela até São Luiz, no Maranhão, para assistir ao monólogo Esperando Becket, que ela faz sob a direção de Gerald Thomas. Ainda teve dificuldade de sair do hotel, sempre cercado pelas fãs. Não foi, por exemplo, ao show de bumba-meu-boi junto com a rapaziada da Companhia do Gelo Seco para evitar problemas com a multidão. Quase seis meses depois do fim da novela, ainda há gente que fofoque sobre sua relação com Vera Fischer, o que teria acontecido de fato na viagem ao Japão e as conseqüências daquele espocar de beijos no humor de Gabi. Gianecchini está processando uma revista. Guarda da temporada de mega-exposição um olhar desconfiado sobre o caderninho de anotações dos repórteres. Acabou de comprar, sim, um apartamento na Gávea e vai morar por ali nos próximos meses. Mas se é no alto, no baixo ou no meio do bairro, não informa. Algumas velhinhas de Copacabana já fazem a tocaia ao redor do teatro. Chega de ouriço. Quer ser carioca em paz.

''Baixinha, vamos colocar um telão na sala?'', Gianecchini perguntou outro dia para Gabi, por telefone, acertando mais um detalhe da decoração do novo apartamento, que será assinada por Cecília Borgethi. A mudança do apart-hotel para a Gávea só acontecerá em julho.

''Boa idéia, baixinho'', concordou Gabi, que fica no Rio de quinta à segunda, e entre outras afinidades com o marido tem a de adorar ficar em casa vendo vídeo. No último fim de semana viram Garotos incríveis, com Michael Douglas. ''O Giane é totalmente low profile. Quietinho.''

O casal está junto há três anos, sem se importar com o que fuxicam sobre a diferença de não sei quantos anos entre eles, sem se abalar com o furacão Vera Fischer, sem achar muito importante o ''chega pra lá'' ciumento que Gabi deu numa fã que passou a mão boba em Giane em Salvador. E principalmente sem posar. Nos fins de semana, gostam de passar horas na casa dos amigos, como a iluminadora Karina Camurati, jogando Imagem e Ação ou Leréia, um jogo de dicionário.

''Somos dois caipiras do interior de São Paulo, conversamos, rimos e viajamos de um jeito muito parecido'', diz a ''baixinha'', 1m80, Gabi, jornalista rigorosa e de enorme credibilidade no seu trabalho. ''Vou te dizer uma coisa'', completa Gabi,''é o casal mais acertado que eu conheço por aí.''

Os dois podem ser vistos no roteiro de restaurantes do Leblon, como o Carlota, o Garcia Rodrigues e o Celeiro que é, com seu cardápio de saladas, o preferido do ''baixinho'', 1m86, 82kg, Gianecchini. Deus ajudou, mas o galã faz seu esforço diário para manter a obra do Divino. Malha ferro quatro vezes por semana na Body Tech da Nossa Senhora da Paz com o professor Robertinho. Corre na praia e joga vôlei com o pessoal da Companhia do Gelo Seco na rede em frente ao Hotel Sol de Ipanema. Ingere boa quantidade de geléia real. De noite só come proteína e, de dia, só carboidrato.

''O Rio é solar, te motiva para a prática de esporte, das coisas simples como a busca da saúde, e eu adoro isso'', diz Gianecchini, bem disposto para a maratona de trabalho nessa temporada de carioca.

Que venham as viagens até o Projac, o complexo de estúdios da Globo em Jacarepaguá, para onde terá que se deslocar a partir do final do mês a fim de gravar As filhas da mãe, de Silvio de Abreu, a próxima novela das sete. Fará um modelo que se transforma em ator, uma história que lembra alguma coisa, não? Mas do outro lado do par romântico sai Vera Fischer com seus seios turbinados, e entra um peso pesado da comédia, Claudia Gimenez, que, ainda por cima, estará vestida o tempo todo de homem.

Que venham todas aquelas fãs de novo com a mania de ''agarrar, de te achar íntimo porque te viram de noite na televisão'', um flash de histeria que Gianecchini não compreende.

Que venha o trabalho de divulgação do filme As avassaladoras, de Mara Mourão, filmado no ano passado, e mostre sua estréia no cinema no papel de Tiago, um sujeito esnobe e arrogante que, vai fazer o quê?, pega todas as avassaladoras do título.

Que venham as pedaladas na Calói até o Sesc da Domingos Ferreira ao encontro das dores e delícias de ser um ator de Gerald Thomas!

O príncipe de Copacabana tem como cenário uma reprodução do subsolo da estação do metrô do bairro, que foi aberto numa rocha. É para lá que um grupo de atores frustrados, barrados na Globo, seqüestra o personagem de Gianecchini, que, evidentemente, faz uma superestrela da emissora, paparicada pela mídia e ao mesmo tempo desparagonada pelos efeitos da exposição demasiada. A história dá uma roçadinha no esqueleto de Hamlet, um príncipe, como o galã da Globo, traído e oprimido pelo poder. Lá pelo meio da peça pode ser que ele grite o bordão ''Ser ou não ser'' mas, thats Gerald, até o fechamento desta edição nada estava muito claro.

''O Giane é um prato cheio para mim'', diz o diretor, ''pois está no meio da fornalha, bem no centro de onde o Brasil de mentirinha é gravado todos os dias''.

Não fica claro em nenhum momento da peça se quem está em cena é o príncipe da Dinamarca, diretamente do castelo de Elsinor, ou o príncipe da Globo, diretamente do Projac - e isso não é nenhuma crítica, é apenas mais um evento Gerald Thomas e sua incrível capacidade de desorganizar idéias, desestabilizar atores e desconstruir com luz e fumaça de gelo seco os cenários mais espetaculares do teatro brasileiro. Gianecchini confessa: ''teve um momento doloroso, meu Deus!, que eu meio entrei em desespero''.

Sem historinha costurando a peça, fica difícil para o ator seguir o rumo. Gianecchini custou a entender que uma das lições do diretor é se divertir com o teatro. A partir daí foi fácil. Gerald sugeria por exemplo que os atores brincassem de mímica. A cena do louco, um dos momentos de destaque de O príncipe, veio daí. Ora, jogar mímica com os amigos é um dos passatempos preferidos do fim de semana carioca de Gianecchini, fã também do programa Whos in line anyway? (De quem é a próxima fala?), estréia recente da Sony, e inspirado na brincadeira.

''No início foi um espanto e eu dormia mal quando chegava em casa'', diz Paula Burlamaqui, a mentora do seqüestro do galã e companheira dos jogos de adivinhe que filme é esse pelos salões do Rio, ''mas agora a gente está se divertindo muito. E o Giane tem tudo para se confirmar como um grande ator. É seríissimo.''

No momento, ele está no ar, na televisão, apenas numa propaganda das lojas Renner. Poderia estar fazendo bailes de debutantes, onde descolaria sem dificuldades um cachê de R$ 15 mil por festa. Teve propostas para espetáculos oportunistas, comerciais, pós-Laços de Família. Ficou balançado e quase pegou uma montagem de Blue room, que Nicole Kidman fez em Londres, o que lhe daria a oportunidade de compor cinco personagens. Mas queria ainda mais, queria alguma coisa que desse continuidade ao seu pouco conhecido trabalho de ator em São Paulo, onde fez três trabalhos com o grupo Oficina. Alguma coisa que confirmasse a impressão de alguns de seus mestres.

''É um ator de uma disciplina incrível, de muito talento e que com o Gerald está em ótimas mãos para dar mais um passo certo na carreira'', diz Manoel Carlos, autor de Laços de Família, vizinho de Gianecchini no Leblon e seu companheiro em animados cafés da manhã na livraria Argumento, da Dias Ferreira.

''Ele é muito dedicado, faz o trabalho de casa, e tem um controle de corpo como nunca vi'', diz Josye Antello, professora de segmentação, um método que usa a mímica como exercício para fragmentar o corpo e deixar o ator com uma consciência mais global de seus gestos. ''O Gianecchini é o meu melhor aluno. Vai longe.''

Só o tempo dirá em que escaninho, se ator global ou ator de prestígio, Reynaldo Gianecchini vai se ajustar no futuro. Aos 28 anos, mais bonito do que antes, com um mullets fashion caindo pelo pescoço, podia enriquecer na primeira opção - mas não curte badalações noturnas, não tem a mínima idéia onde fica o Dadobier ou a Bedroom. Gosta de passar as tardes vendo Snatch, do modernésimo Guy Ritchie, e uma noite bacana pode ser aquela que passa atracado com Popcorn, de Ben Elton, e Abril despedaçado, de Ismail Kadaré,bons exemplos de atualização na área da literatura. Definitivamente não tem nada a ver com Claudio Uga Uga Heinrich das sete ou algum Zulu das oito. Fala baixo, é discreto, educado - e gosta de pensar, caramba, o que está fazendo afinal por aqui. O alvoroço da mídia, suas capas sensacionalistas, fofocas sem fundamento e intrigas fiéis apenas ao IVC, marcaram fundo.

Em O príncipe de Copacabana, Reynaldo Gianecchini quer comentar tudo isso e se despir - calma garotas! não é bem isso! - de todas as vaidades.

''Quem for ao teatro procurando o galãzinho vai se decepcionar, porque ele não está no palco'', avisa. ''Ao longo da peça vou me destruindo. Me jogam no chão, me chacoalharam. O processo psicológico também vai me alterando com os questionamentos. Até que ponto você está vivendo de mídia, até que ponto a vida de um ator de sucesso na Globo é mais importante que o seu trabalho. Isso aconteceu comigo, é horrível e não quero mais. No final da peça estou desestruturado.''

Um dos bons momentos do espetáculo é quando um dos atores-seqüestradores, no fundo do metrô de Copacabana, grita para o galã da Globo: ''Volta pro teu Projac!'' E o galã responde: ''Não! Eu faço teste! Eu quero ficar aqui!''

Entre o dr. Edu e o dr. Thomas, para onde seguirá Reynaldo Gianecchini com sua Calói alumínio? Por quais ciclovias do ser ou não ser - eis a questão - ele pedalará? Veja no próximo capítulo ou na próxima performance da Gelo Seco. Essas histórias, como as de Gerald, custam muito a ficar prontas.

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