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Educação no Trânsito: Cidade sem lei
Consultor de trânsito
Erraram os que pensaram que eu sempre me refiro só ao Rio. Como o meu assunto é ''Educação de trânsito'', é sobre ele que eu trago uma novidade divulgada, com este título, pela revista Quatro Rodas, edição de setembro. A cidade enfocada é Harém, lá no norte da minha Holanda, país onde dei os primeiros passos no aprendizado da ciência do controle do trânsito, convivendo com sua excepcional polícia especializada. Por ser a Holanda um dos países com o trânsito mais organizado do mundo, não foi difícil pegar uma pequena cidade com apenas 18.500 habitantes para tentar instituir o voonerf (área comum). Tentaram provar que, num país de altíssimo respeito aos direitos do próximo, com leis duríssimas e cumpridas, com uma polícia de trânsito incorruptível e altamente treinada, com elevado espírito comunitário e sem analfabetos, o tema Faça as ruas parecerem perigosas e elas se tornarão seguras funciona. Ou seja: podem retirar os avisos de sinalização porque o povo já tem a lei como norma. O engenheiro Hans Monderman, idealizador do projeto-piloto, externou a sua filosofia: - Quanto mais informal a organização do tráfego, mais as pessoas terão autonomia para decidir o que é certo. Sendo tratadas como idiotas, elas só podem se comportar como tal. Foram eliminadas faixas, semáforos, placas de sinalização e até a divisão entre rua, ciclovia e calçada. Quem chega a uma voonerf de carro depara-se com um portal que lhe dá as boas vindas e avisa que a pessoa está entrando numa área de tráfego restrito. A velocidade máxima permitida é de 30 km/h, mostrada numa das raras placas sobreviventes. A partir deste portal a paisagem muda. A rua vira um grande bulevard, ''como se fosse um calçadão'', diz a reportagem. O sistema funciona, nessa pequena cidade, há mais de três anos, sem nenhum registro de acidente grave. Nada disso me surpreende, uma vez que, como disse, existe um respeito total pelo direito do próximo a ponto de não ser tolerado estacionar o seu carro ou de visita à sua casa na porta ou calçada que não seja a sua. E, principalmente, porque o serviço de trânsito é dirigido por profissionais competentes, oriundos dos quadros de carreira. E, acima de tudo, porque eles possuem um Código de Trânsito altamente didático possuindo 600 páginas, nas quais todo artigo tem a explicação de porque foi criado e de como fazer para respeitá-lo em seu próprio benefício e não apenas pelo temor da lei. Aqui, no Rio, existe um arremedo de uma voonerf, na área central, dita para pedestres, em torno da rua Sete de Setembro. Lá, vale tudo. É como se as placas não existissem, uma vez que ninguém as respeita. Só falta um portal com os dizeres: ''Área de zorra total'', onde os respeitadores da lei são tidos como idiotas e procedem como tal, tolerando e convivendo com o que acontece nesta voonerf carioca.
[03/DEZ/2005]
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