Um sonho erguido em pesadelo

Unidos em comissão, mutuários da Encol na Barra reiniciam obra abandonada por construtora que faliu

Renata Domingues

[19/AGO/2004]

Quase uma década depois de anunciada a falência da construtora Encol, vai chegando ao fim um dos tristes capítulos de uma novela marcada por obras paralisadas e consumidores prejudicados. Pelo menos para os proprietários dos condomínios Villa Borghese e San Filippo, na Barra, o pesadelo está se transformando no sonho da casa própria.

Após obter da Caixa Econômica Federal um financiamento de R$ 120 milhões para a retomada da construção, a comissão de obras dos dois condomínios reiniciou, no último dia 25, as obras de suas três torres, que ocupam terrenos na rua Coronel Paulo Malta Resende e na Av. Evandro Lins e Silva.

- Graças a Deus, nossa luta foi de glória. Conseguimos retomar as obras com total independência da Encol. Tanto que adquirimos financiamento na Caixa - comemora o diretor-presidente da comissão de obras, Antonio Netto.

A luta dos proprietários para retomar as obras foi longa. Desde o momento em que a Encol pediu concordata, eles começaram a se mobilizar. Mesmo assim, foi somente depois de uma longa briga na Justiça, entre 1997 e 2002, que os futuros moradores, juntamente com a construtora Cláudio Macário - proprietária dos dois terrenos -, conseguiram rescindir seus contratos com a empresa falida.

- Entrei nessa luta por causa dos meus filhos, que tinham comprado três apartamentos. Mas não imaginava que as pendengas jurídicas iriam nos tomar tanto tempo. O que analisei como engenheiro foi o fato de que o valor das unidades não vendidas somado ao saldo devedor dos apartamentos financiados era suficiente para custear as obras - explica Netto.

A comissão de obras manteve com a proprietária dos terrenos a mesma política negociada pela Encol: ofereceu 200, do total de 792 apartamentos, em troca dos terrenos. Segunda a comissão, todos os 22 empreendimentos que a Encol abandonou no Rio eram construções irregulares:

- As obras desses prédios estavam totalmente ilegais. A Encol não tinha licença nem memorial de incorporação - diz o diretor-tesoureiro da comissão, Ulisses Monteiro.

Durante todo o período de brigas judiciais, os proprietários tiveram que arcar com as reformas de recuperação e manutenção da estrutura dos prédios. A taxa de R$ 193, paga mensalmente pelos condôminos, também foi utilizada para regularizar as licenças, pagar os impostos, refazer as plantas e construir mais dois andares em cada torre.

- Não podíamos começar uma obra sem ter prazo previsto para finalizá-la. Por isso, só começamos a reconstrução depois que o financiamento foi liberado. Mesmo assim, fizemos reformas durante todo esse tempo. Na época em que a Encol abandonou a construção dos prédios, o Edifício San Filippo, o mais avançado nas obras, tinha somente sete andares - lembra Roberto Hely Barchilón, um dos advogados da comissão de obras.

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