'); //-->
AJB Online Área do Leitor Pesquisa Classificados


Na (de) cadência do samba

Especialistas analisam o que seria a perda da importância e da qualidade dos sambas-enredo nas escolas na era dos canavalescos

Monique Cardoso

Falta menos de um mês para o carnaval e não se vê nas ruas, praias, pontos de ônibus, estações de trem e metrô o povo cantarolando os sambas-enredo deste ano. Até tem gente levando um ou outro nas festas das escolas, mas aí entra o componente torcida, que cega qualquer avaliação. Também não se ouvem comentários que já foram tão habituais: “o samba da minha escola está lindo”. O disco está em todas as lojas e bancas de camelô e as rádios populares não deixam de tocar. Mas a cada ano diminui a expectativa de um sucesso retumbante, para entrar na história. Há quem diga que são as letras, que teriam ficado fracas, explorando fórmulas fáceis. Estudiosos, compositores e amantes do samba ouvidos pelo JB apontam razões para um suposto sumiço da poesia, não só no samba-enredo, mas do carnaval.

– Candeia dizia que o coração de uma escola de samba é a ala dos compositores. Hoje, com a mudança nessa estrutura, o samba perdeu sua importância. A escola hoje gira em torno do carnavalesco. E o samba se tornou operacional, com função não de emocionar, mas de descrever o enredo – critica o radialista e estudioso do carnaval Luís Carlos Magalhães, locutor da rádio 94 FM.

O compositor e escritor Nei Lopes aponta a introdução da sinopse dos enredos como fator de engessamento das letras do samba.

– O samba surgiu antes do enredo. Antigamente a escola tinha um tema, o compositor fazia o samba e a parte cênica era produzida a partir da letra que se criava. Hoje as sinopses trazem até frases pré-determinadas. A abordagem é do carnavalesco e não do poeta. As letras se tornaram pasteurizadas, ruins em termos musicais – afirma Nei.

O bamba aponta ainda outros motivos para a compreensão do processo de enfraquecimento do samba-enredo:

– É muito difícil para o não iniciado perceber a enorme diferença que hoje existe entre samba e escola de samba e o grande fosso que se cavou entre essas duas instituições. Para compreender essa diferença, basta comparar a escola com suas velhas guardas e, de quebra, evocar qualquer um grande sambista, principalmente falecido, e ver se seu nome é sequer lembrado nos ensaios das quadras de hoje, cheias de gente bonita e famosa – analisa Nei.

A justificativa de integrantes das escolas é a mesma: o samba-enredo de hoje em dia é apenas um reflexo da evolução do carnaval. Precisa ser adequado ao tempo do desfile e à história que o carnavalesco vai contar na avenida. – Não concordo que os sambas tenham piorado. Todo ano surge um samba que se destaca. O fato é que hoje o desfile é um espetáculo hollywoodiano, com horário contado, e o samba tem de se adequar – conforma-se o presidente da Estação Primeira de Mangueira, Álvaro Caetano.

Um breve histórico ajuda a entender como os sambas-enredo realmente mudaram. Os desfiles mais organizados começaram na década de 30 e apenas a primeira parte do samba era composta. Os foliões, pouco mais de 50 pessoas, seguiam cantando versos improvisados, marchinhas e sucessos de carnaval, puxados por repentistas e pelas pastoras. Nas décadas seguintes, os sambas passaram a ser longos, com quase 90 versos, ufanistas, nacionalistas. A estes, somaram-se, nos anos 60, os sambas de exaltação ao negro e à natureza. Temas recorrentes até hoje, deste os tempos de Silas de Oliveira, com o inesquecível Aquarela brasileira (“Vejam, essa maravilha de cenário...”) recentemente resgatado pelo Império Serrano.

O ritmo foi acelerado na virada dos anos 70 para os anos 80, com Festa para um rei negro (de 1971, mais conhecido pelo estribilho “Pega no ganzê/Pega no ganzá...”). A inauguração do sambódromo e a comercialização dos direitos de transmissão dos desfiles pela televisão deram o andamento: 80 minutos para atravessar a (e não na) avenida.

– Os sambas estão limitados a, no máximo, 30 versos. O compositor não tem liberdade para dar sua visão do enredo. Só vai mudar se a gente esquecer dos tais 80 minutos na hora de escrever – avalia o sambista Moacyr Luz.

Apaixonado e integrante da Vila Isabel, Moacyr não deve estar tendo motivos para se orgulhar do samba – de autoria de André Diniz, Serginho 20, Carlinhos do Peixe e Carlinhos do Petisco – de sua escola este ano. Os primeiros quatro versos não são lá nenhum primor: “Para bailar La Bamba, cair no samba/Latino-americano som /No compasso da felicidade/Irá pulsar mi corazón”. Fica inevitável não enxergar uma rima forçada.

– Até hoje só disputei samba-enredo duas vezes. É coisa para cachorro grande. Acredito que o compositor precisa ter um envolvimento muito grande com a escola, abraçar a comunidade. É como um time. Eu tenho admiração por várias, mas hoje não conseguiria fazer samba para escola. Só que tem muita gente que faz. As mudanças não foram positivas, tanto é que só nos lembramos de sambas de 20 anos atrás – diz Moacyr.

Pesquisador da linguagem popular e autor do livro Para tudo não se acabar na quarta-feira – A linguagem do samba-enredo, o lingüista Júlio César de Farias analisa anualmente as letras escolhidas pelas agremiações.

– Procuro mostrar os principais recursos discursivos utilizados pelos compositores, mas às vezes é preciso “tirar leite de pedra”, devido à aridez textual e poética das letras. Procuro mostrar o que cada samba tem de melhor – afirma o professor.


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[29/JAN/2006]


   Home > Caderno B


Tempo Real