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MPB teve ajuda do jabá


O temor de serem eliminados dos veículos de comunicação de massa parece fazer com que os próprios músicos fortaleçam as engrenagens da prática. André Midani, que deixou a indústria fonográfica há cerca de três anos e em 2003 denunciou publicamente os mecanismos do jabá, conviveu de perto com essa realidade durante as mais de quatro décadas em que atuou como presidente de companhias como Odeon, Polygram e Warner Music. Ao tentar interromper o círculo vicioso, ele percebeu a dimensão dos obstáculos a serem enfrentados.

- O artista nunca vai confessar que defende o jabá, mas ele tem clara noção de que é um componente importante dentro da estratégia de divulgação de seu trabalho. Quando eu estava no apogeu da Polygram, no final dos anos 70, decidi que não pagaria mais propina para as rádios. Um amigo me avisou que eu me daria mal: tinha sido feito um acordo entre (o lendário DJ) Big Boy e radialistas do Rio e de São Paulo e a partir do dia tal todos os meus artistas seriam ''limados''. E foi o que aconteceu. Os cantores então me ligaram querendo saber por que suas músicas não estava mais tocando - conta Midani.

De tão antigo e institucionalizado, o jabá ajudou a construir a história da música brasileira como a conhecemos hoje. Ao longo de sua trajetória, Midani trabalhou com nomes da bossa nova, do tropicalismo e do rock dos anos 80, como Elis Regina, Jorge Ben, Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim, Raul Seixas e Barão Vermelho. Ele confessa que o jabá ajudou a consolidar a carreira dos artistas com os quais trabalhou.

- Eu paguei jabá para Gilberto Gil tocar nas rádios e pagaria de novo. Não me arrependo porque muitos desses artistas que hoje são os pilares da música brasileira talvez tivessem demorado muito mais para acontecer, ou talvez não tivessem acontecido com tanta luminosidade se não tivessem tido, no meio de outras opções promocionais, o jabá - afirma Midani.

Mesmo com denúncias feitas por gente como Midani e reclamações públicas de nomes como Ivan Lins, Cauby Peixoto, Fred 04, do Mundo Livre S.A. e Lobão, representantes de gravadoras e de rádios - que, procuradas pelo JB, não quiseram falar a respeito do tema - negam a existência da ''propina'' midiática.

O recém-lançado livro Cadeia produtiva da economia da música, uma abrangente e substanciosa pesquisa de mais de 500 páginas realizada ao longo de três anos pelo Instituto Gênesis, da PUC-Rio, analisa, entre outros elementos da música como fonte de renda, os efeitos do jabá no mercado fonográfico. O estudo mostra que esses gastos extras para a divulgação de artistas, apesar de vantajosos em um primeiro momento, tornam-se prejudiciais até para as gravadoras e meios de comunicação, pois o produto final que chega ao consumidor, o CD, acaba ficando mais caro.

Em um debate realizado na Academia Brasileira de Música, no Rio - e transcrito no livro Cadeia produtiva da economia da música -, o violonista Turíbio Santos criticou a prática. Para o músico e presidente do Museu Villa-Lobos, os acordos, para ele escusos, para beneficiar a execução de determinadas músicas em rádios e TVs prejudicam toda a rede de produção que sustenta a indústria fonográfica:

- Não sei exatamente como é lá fora, mas, no Brasil, o jabá é um elemento quase cultural. É muito importante criar mecanismos para coibir essa prática, porque ela autodestrutiva. Ninguém faz uma especulação predatória desse nível no mercado imobiliário, por exemplo, porque sabe do risco de destruir toda a estrutura de uma só vez. O jabá não corrompe só o comércio, mas também destrói a alma da música brasileira.


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[31/DEZ/2005]


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