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Fernando de Castro: Toque de recolher


Todas as madrugadas, religiosamente, vou ao supermercado. Menos por fé ou falta de arroz, mais por receio de que numa noite qualquer, por falta de fregueses, algum Diniz em crise conjugal resolva adequá-lo ao horário convencional. Também costumo dar uma passada rápida pela farmácia, para alguns comprimidos, ou apenas entregar palavras de incentivo ao atendente pelo interfone, em gesto de extrema delicadeza que algumas vezes não chega a ser muito bem entendido, como ocorreu noite dessas, quando fui respondido com um educado ''sai fora que eu gosto de mulher''. Levei na esportiva. Sou tão grato aos estabelecimentos 24 horas que ainda funcionam no Jardim Botânico que até eventuais desencontros a respeito da minha sexualidade costumam ser relevados.

Nos bons tempos em que o Rio era apenas uma cidade violenta, um estabelecimento comercial manter-se aberto por 24 horas não causava essa comoção toda - na verdade, a comoção começou quando os funcionários desses estabelecimentos passaram a ser cotidianamente baleados. Como a polícia tinha compromissos mais urgentes na ocasião, como fuzilar menores de rua ou reclamar por salários menos constrangedores, a coisa desandou de vez. Resultado: hoje, qualquer relato que venha dizer de algum endereço que bravamente não cerre suas portas durante a madrugada se tornou um fato digno de grandes providências.

Sei de um sujeito que ficou tão feliz ao passar em frente a um consultório dentário 24 horas e perceber as luzes acesas que nem titubeou: foi lá e arrancou dois dentes à revelia - felicidade esta que não se repetiu na madrugada da semana seguinte, quando retornou eufórico para instalar os pivôs e descobriu que o dentista, depois de ter sido displicentemente espancado por cinco adolescentes médio-classistas entediados com a falta de opções na TV a cabo, havia transferido seu consultório para Juiz de Fora.

Infelizmente, o Rio acostumou-se a ser uma cidade diurna, muito por conta de um justificável instinto coletivo de sobrevivência, mas muito também porque o poder público parece ignorar que a simples extinção da madrugada no cotidiano dos cariocas causa prejuízos de toda ordem - inclusive econômico, que vem a ser o único dialeto que de fato comove administradores como o Cesar Maia.

Não deixa de ser frustrante que uma cidade que teve boa parte da sua produção cultural surgida enquanto o resto do país dormia hoje se sinta obrigada a trajar pijamas ou coletes à prova de balas para manter-se relativamente viva. Ainda que, em se tratando de frustração, isso realmente não tenha a menor relevância, se comparado ao fato de que pessoas são mortas carbonizadas dentro de um ônibus às dez horas da noite, a caminho de casa.

Não tarda, e o próximo passo inevitavelmente será a imposição do toque de recolher.

E o que é pior: provavelmente às seis horas da tarde.

  • Fernando de Castro escreve às terças


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    [06/DEZ/2005]


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