Fausto Wolff: Dinossauros de Gutenberg

[06/DEZ/2005]

Todas as semanas me encontro com alguns amigos dinossauros jornalistas. O objetivo é beber até a morte. Quando a morte não vem, o mais sóbrio carrega os sobreviventes para as respectivas casas. Embora bem-sucedidos, respeitados na sociedade e até queridos por seus subalternos, os outros quatro sentem o mesmo que eu. Uma sensação de que nosso dever não foi cumprido; que, se Deus existir, no dia em que nos apresentar a fatura não teremos como provar que fizemos o humanamente possível. Sonhei que Tupã diria:

- Como humanamente possível? Vocês se destruíram antes de se tornarem humanos. Mataram-se uns aos outros por causa de papel colorido quando ainda estavam em fase de evolução ao humanismo.

Gostaria de poder dizer isso a Lula e seus ministros e líderes, mas eles não ouvem ninguém e estão certos (estarão certos, mesmo?) de que carregam a justiça no bolso. Se me escutassem, gostaria de dizer-lhes que eu e meus amigos jornalistas dinossauros chegamos à conclusão de que se ele e sua equipe houvessem ficado em casa depois da posse; se houvessem colocado um contador em cada órgão e uma comissão policial rotativa para evitar o roubo, estaríamos todos no lucro, até o FMI.

Mas agora o mal está feito. Presidente, ministro, líderes, cada qual já deu sua cota para desgraçar o país. Das crueldades, das baixezas, creio que a pior foi a de dar foros de dignidade, coragem, honestidade à gorilada que nos atacou em 1964. As viúvas e órfãos da ditadura, fardados ou não, já estão se movimentando em centenas de grupos que aparecem na internet pedindo pena de morte gritando: ''Fora Comunistas''.

Srs. Gorilas, sinto muito, mas posso lhes garantir que não existe mais nenhum comunista no PT e no governo. Se houver algum, está fazendo a mesma coisa que a Arena fez por quase três décadas: adorando o bezerro de ouro do FMI. Não há razão para pena de morte, como querem alguns patriotas.

Juntamente com a religião e o tráfico de drogas (quando não andam juntos, pois um precisa do outro), a guerra é o melhor negócio do mundo. Para estar à frente dele o homem é capaz de explodir aviões contra o World Trade Center, apenas um aperitivo se comparado ao prato principal que foi o bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki. Imaginem que quem não quer ir para a guerra é considerado traidor (como Muhammad Ali) ou covarde (como o soldado Slovik executado por um pelotão de fuzilamento na 2ª Guerra Mundial).

A guerra e a pena de morte são as duas coisas mais estúpidas que o homem já inventou. Sobre a pena de morte sou favorável a que ela seja aplicada àqueles que são favoráveis a ela. No caso de molestadores de menores, creio que uma castração resolve. Se, porém, insistirem em legalizar a pena capital, tenho algumas sugestões.

A primeira é a de que o condenado seja levado até o local mais central e espaçoso da cidade (o estádio do Maracanã, no Rio, por exemplo) e que diante de público pagante e televisão global, o juiz, jurados e promotor o apedrejem até a morte, evitando acertar a cabeça. Pois a idéia é promover maior sofrimento ao condenado e maior prazer à platéia, como acontecia nos tempos de Moisés com mulheres adúlteras, heréticos e ladrões.

A segunda foi inspirada em Neném Prancha, famoso treinador de futebol de areia. Segundo ele, o pênalti era tão importante que deveria ser cobrado pelo presidente da República. Sugiro nesse caso (quando a gorilada ''do ame-o ou deixe-o'' ou ''vou te cobrir de cacetadas'' tomarem o poder e substituírem os atuais genocidas pelos seus) que o chefe do Executivo decepe a cabeça do réu.

Como a ditadura não abdicaria do neoliberalismo petista-pessedebista, logo o show da morte se transformaria no programa campeão de audiência da TV com locutores, comentaristas, Ballet do Municipal, Gilberto Gil e as mulatas que não estão no mapa. O primeiro carrasco seria o presidente, o segundo o vice e assim por diante, até o mais inexpressivo vereador do município de Casquinha. Depois disso os verdugos seriam convocados pelo correio como os jurados até o dia em que não houvesse mais condenados e nem carrascos e nem ninguém.

  • Fausto Wolff escreve às terças, quintas e aos domingos

  • Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil. É proibida a reprodução
    total ou parcial do conteúdo do JB Online para fins comerciais

    http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernob/2005/12/05/jorcab20051205013.html