|
|
Eric Nepomuceno: Entre a sacoleira do luxo e as mulheres da vida
[06/DEZ/2005]
Que alguma coisa está fora de ordem, todo mundo sabe. Aliás, será que sobrou alguma coisa dentro de alguma ordem?
No Rio de Janeiro, uma ONG que se chama Davida e atende, orienta e cuida de mais de 4 mil prostitutas, anunciou o lançamento de uma confecção de roupas. Coisa modesta: serão três linhas, produzidas em casa por 22 associadas. A primeira, de festa. A segunda, dedicada a 'figurinos básicos'. E a terceira, para uso em trabalho - delas, bem entendido. A idéia de Gabriela Leite, que estudou sociologia na USP, virou prostituta, deixou o ofício e agora preside a ONG, é que a confecção se transforme em uma fonte alternativa de renda para essas moças de vida difícil e que insistem na preservação da própria dignidade.
Na hora de batizar a grife, não deu outra: Daspu. Afinal, para levar a vida que levam, nada como o humor. A reação veio de São Paulo: o advogado Rui Fragoso, falando em nome de outra grife, a Daslu, mandou uma notificação extrajudicial para a Daspu, exigindo troca de nome. E a coisa ficou fora de ordem.
Senão, vejamos: o Daslu vem dos nomes de duas senhoras, Lúcia Piva de Albuquerque e Lourdes Aranha dos Santos, que em 1958 decidiram vender roupas. A loja, pois, era das Lu, que vendiam para uma clientela endinheirada roupetas trazidas do exterior. Em 1984, Eliana Tranchesi, filha de uma das Lu - a Lúcia, que morreu naquele ano -, passou a tomar conta do negócio. E deu à Daslu sua cara atual: a da ostentação desenfreada, do exibicionismo ralé, templo de um consumismo insensível, elevado a patamares inimagináveis e abjetos neste país de diferenças e miséria. Em junho, ela inaugurou a nova Daslu: 20 mil metros quadrados para o gáudio cretino da clientela. Foi o sonho de expansão de Eliana, que continuou trazendo roupas e produtos de fora (ia dizer importando, mas importar significa cumprir leis, pagar impostos - um trabalhão danado que ela e seus sócios tiveram o cuidado de evitar).
Pouco depois, presa durante uma espalhafatosa operação policial, Eliana viu-se reduzida à sua justa medida, no papel de sacoleira do luxo, da ostentação e da futilidade. Passou 12 horas na cadeia, tempo destinado aos ricos pegos em alguma falcatrua. Os negócios começaram a bambear, a Daslu está mandando gente embora. Claro que a filha do governador Geraldo Alckmin, que é uma dasluzete - assim são chamadas as jovens aprendizes de perua que trabalham na loja -, continua empregada.
Pois é em nome de preservar essa imagem que a Daslu está querendo impedir que exista a Daspu. Estranho ter acontecido assim, e não ao contrário: as moças da Vila Mimosa ralam para viver e vivem com o suor do próprio corpo. Não ofendem ninguém ao querer ganhar um troco a mais. Quando vão presas, ninguém move céus e terra nas páginas para protestar. A única coisa que ostentam são as marcas de seu ofício, e uma alegria tirada de onde ninguém sabe.
Na verdade, elas é que deveriam protestar na Justiça contra a loja de São Paulo e suas muambas avidamente sorvidas por uma clientela estapafúrdia. Afinal, o que denigre mais o ser humano: as fraquezas da carne, requeridas pela clientela de umas, ou a falta de noção do que é viver num país como este, exibida pela clientela da outra?
Pensando bem, razão tinha Chico Buarque, quando escreveu a letra de Cambaio. Aquela que, a certa altura, esclarece: ''Eu sou mais as putas''.
|
|
Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil.
É proibida a reprodução
http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernob/2005/12/05/jorcab20051205012.html
|