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Eric Nepomuceno: Entre a sacoleira do luxo e as mulheres da vida


Que alguma coisa está fora de ordem, todo mundo sabe. Aliás, será que sobrou alguma coisa dentro de alguma ordem?

No Rio de Janeiro, uma ONG que se chama Davida e atende, orienta e cuida de mais de 4 mil prostitutas, anunciou o lançamento de uma confecção de roupas. Coisa modesta: serão três linhas, produzidas em casa por 22 associadas. A primeira, de festa. A segunda, dedicada a 'figurinos básicos'. E a terceira, para uso em trabalho - delas, bem entendido. A idéia de Gabriela Leite, que estudou sociologia na USP, virou prostituta, deixou o ofício e agora preside a ONG, é que a confecção se transforme em uma fonte alternativa de renda para essas moças de vida difícil e que insistem na preservação da própria dignidade.

Na hora de batizar a grife, não deu outra: Daspu. Afinal, para levar a vida que levam, nada como o humor. A reação veio de São Paulo: o advogado Rui Fragoso, falando em nome de outra grife, a Daslu, mandou uma notificação extrajudicial para a Daspu, exigindo troca de nome. E a coisa ficou fora de ordem.

Senão, vejamos: o Daslu vem dos nomes de duas senhoras, Lúcia Piva de Albuquerque e Lourdes Aranha dos Santos, que em 1958 decidiram vender roupas. A loja, pois, era das Lu, que vendiam para uma clientela endinheirada roupetas trazidas do exterior. Em 1984, Eliana Tranchesi, filha de uma das Lu - a Lúcia, que morreu naquele ano -, passou a tomar conta do negócio. E deu à Daslu sua cara atual: a da ostentação desenfreada, do exibicionismo ralé, templo de um consumismo insensível, elevado a patamares inimagináveis e abjetos neste país de diferenças e miséria. Em junho, ela inaugurou a nova Daslu: 20 mil metros quadrados para o gáudio cretino da clientela. Foi o sonho de expansão de Eliana, que continuou trazendo roupas e produtos de fora (ia dizer importando, mas importar significa cumprir leis, pagar impostos - um trabalhão danado que ela e seus sócios tiveram o cuidado de evitar).

Pouco depois, presa durante uma espalhafatosa operação policial, Eliana viu-se reduzida à sua justa medida, no papel de sacoleira do luxo, da ostentação e da futilidade. Passou 12 horas na cadeia, tempo destinado aos ricos pegos em alguma falcatrua. Os negócios começaram a bambear, a Daslu está mandando gente embora. Claro que a filha do governador Geraldo Alckmin, que é uma dasluzete - assim são chamadas as jovens aprendizes de perua que trabalham na loja -, continua empregada.

Pois é em nome de preservar essa imagem que a Daslu está querendo impedir que exista a Daspu. Estranho ter acontecido assim, e não ao contrário: as moças da Vila Mimosa ralam para viver e vivem com o suor do próprio corpo. Não ofendem ninguém ao querer ganhar um troco a mais. Quando vão presas, ninguém move céus e terra nas páginas para protestar. A única coisa que ostentam são as marcas de seu ofício, e uma alegria tirada de onde ninguém sabe.

Na verdade, elas é que deveriam protestar na Justiça contra a loja de São Paulo e suas muambas avidamente sorvidas por uma clientela estapafúrdia. Afinal, o que denigre mais o ser humano: as fraquezas da carne, requeridas pela clientela de umas, ou a falta de noção do que é viver num país como este, exibida pela clientela da outra?

Pensando bem, razão tinha Chico Buarque, quando escreveu a letra de Cambaio. Aquela que, a certa altura, esclarece: ''Eu sou mais as putas''.

  • Eric Nepomuceno escreve às terças


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    [06/DEZ/2005]


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