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Celebração a serviço da posteridade
Alexandre Werneck
[06/DEZ/2005]
A posteridade é o veneno da memória. Exercício radical de posteridade, Vinicius é, antes (e depois) de qualquer outra coisa, uma obra de culto. É de celebração que se trata e é celebração o que se faz em todos os momentos do filme. Nesse sentido, o filme pode ser dividido em duas vertentes operacionais principais com um elemento de ligação. A primeira, de reconstituição, e talvez pudéssemos chamá-la de biográfica ou historiográfica; a segunda, de composição de um perfil, numa operação de uma certa cartografia emocional. Entre as duas, uma goma arábica celebradora, movida a declamações, apresentações e interpretações (cênicas) de poemas.
A primeira, composta por narrações feitas por uma atriz (Camila Morgado) e um ator (Ricardo Blat) e por alguns amigos e familiares, é uma parcela, digamos, utilitária do documentário. É sua parcela de documento, sua pesquisa. A segunda, composta por depoimentos e imagens de arquivo, parece um esforço para entender o poeta. Parece. Porque não se trata de entender.
Assim como em outros filmes sobre mitos, Vinicius é movido pelo movimento que faz do artista uma pessoa de outro mundo. Nesse sentido, o filme de Miguel Faria Jr. se irmana a Glauber (de Silvio Tendler), este, entretanto, mais primário em sua filmagem e em sua edição, enquanto o de Faria enfrenta dificuldades nos excessos do culto, em especial no uso dos atores.
Ambos são filmes em que amigos e parentes constatam como o companheiro era impossível, tão singular que nenhum de nós (nem todos juntos) será capaz de explicá-lo. Restar-nos-ia, então, a celebração, mesmo que no exercício da memória. Claro, a memória está a serviço da posteridade e não da história.
Talvez seja um problema dos filmes e de nossa relação com eles. Por conta de seu formato onírico, o cinema é fantasmagórico, presentificador. Uma imagem de um falecido na tela é sempre uma aparição, uma revisitação. É chega de saudade: sentimos falta dele, que a sessão se transforme em reencontro. Talvez o esforço para o entendimento do objeto - operação cara aos documentários por conta de sua ligação com as ciências sociais - não seja, afinal, uma obrigação.
A defender esse argumento, Ferreira Gullar traz a ''explicação'' mais poderosa já dada sobre Vinicius de Moraes e que talvez valha também para o filme: ''Nunca vamos encontrar explicação para os mistérios da existência. Então, para que procurar? O melhor é uma poesia pra cima, de celebração da vida''.
Vinicius não é um grande filme. Pelo contrário. Recorre a clichês imperdoáveis, de cinema e de Vinicius, mas, como disse o filósofo alemão Martin Heidegger, o pensamento chega a um ponto a partir do qual só há mistério e, com ele, só o poeta é capaz de lidar. O filme não é exatamente bom (embora não seja exatamente ruim), mas a sessão é.
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