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Vinicius ajuda a viver
Omar Salomão
Poeta
Faz uns cincos anos que Vinicius de Moraes se tornou, para mim, Vinicius de Moraes. Conhecia o nome, claro, suas músicas, alguns poemas (sobretudo os infantis). Mas tudo apenas de relance. O momento em que parei e prestei atenção no poeta foi quando meu pai deixou um poema sobre a minha cama. Era uma daquelas edições da Nova Aguilar, reunindo toda a poesia do autor. História passional, Hollywood, Califórnia, escrito no período em que Vinicius viveu em Los Angeles como diplomata, era um poema-tecnicolor, apaixonado e raivoso, com uma força e firmeza novas para mim. Com uma certeza grande do incerto. Com uma vontade de viver. ''Quem pagará o enterro e as flores/ Se eu morrer de amores?'' Com esses versos, inicia-se Vinicius. O documentário dirigido por Miguel Faria Jr. traz em si a força e a vitalidade do poeta. O carisma inebriante. Há depoimentos tão vivos e intensos quanto Vinicius viveu a sua vida. Como Maria Bethânia comentando a sua ida ao terreiro de candomblé na Bahia - o Gantois - e a cadeira de honra para Vinicius. Cadeira pedida por Mãe Menininha, não por ele ser o artista ou o nome que era, mas pela força que trazia consigo, pelo orixá que carregava. Vinicius foi poeta em vida e, como disse Chico Buarque, em busca da felicidade. Uma pessoa que viveu sem se preocupar com padrões e regras vigentes. Pelo contrário, parecia repudiá-los. Queria viver a vida. E vivia com um objetivo em mente: ser feliz.
Talvez, por isso, eu não concorde com Chico quando diz não imaginar o poeta nos dias de hoje. Talvez não se tenha mais o ''porralouquismo'' e a mesma inocência dos anos passados. Mas Vinicius parecia não depender disso. Vinicius não era decorrência do lugar em que vivia, ele transformava o lugar, o seu entorno, de acordo com o seu gosto. Ao contrário do que se apregoa, Vinicius não é para ser visto com a nostalgia de um tempo que só existiu na lembrança, mas como um guia, como dica de como se viver a esperança. Como disse Ferreira Gullar, Vinicius ajuda a viver.
[06/DEZ/2005]
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