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Um certo modo de dizer
Defendendo que a fala é a matéria-prima das canções brasileiras, Luiz Tatit alterna melodia e linguagem coloquial em terceiro CD
Tárik de Souza
Fundado em 1974 por alunos da Universidade de São Paulo (USP) e atuante nos anos 80, na que foi denominada vanguarda paulista, ao lado de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Língua de Trapo e Premeditando o Breque, o Grupo Rumo instaurou o “canto falado” na MPB. Partia do ovo de Colombo de que “a fala no sentido melódico e lingüístico é uma espécie de matéria-prima para todas as canções brasileiras”, como sintetiza o paulista Luiz Tatit, um de seus fundadores. Com o final do grupo, Tatit, autor de abordagens semióticas do tema em livros como A canção, eficácia e encanto (Atual Editora, 1986) e O cancionista – Composição de canções no Brasil (Edusp, 1995), segue carreira solo na mesma direção. Titular do departamento de Lingüística da USP, ele lança seu terceiro disco, Ouvidos uni-vos (Dabliú), alternando melodia e linguagem oral entoada.
– Fazer canção – explica em entrevista por e-mail – significa sempre encontrar um modo de dizer (entoativo) compatível com o que é dito (letra). A densidade teórica de seu discurso, no entanto, não impede que ele seja um autor/cantor fluente e que sua música permita vários níveis de leitura. Baião de quatro toques, já gravada pelo parceiro José Miguel Wisnik (de perfil teórico semelhante a Tatit), baseado no tan-tan-tan-tan da Quinta sinfonia de Beethoven (“uma fixação do Zé Miguel”), é uma dessas músicas que grudam logo no ouvido. O mesmo ocorre com o instigante Rock de breque, em dueto com Ná Ozetti (outra ex-Grupo Rumo), onde ele homenageia o falecido parceiro Itamar Assumpção: “bem mais que um tipo de rock/ pura assunção de sampop/ que breca e derrapa/ na curva do som”. – Ao fazer melodias para diversas letras do Itamar, me veio à cabeça o seu estilo de composição, sempre baseado na linha do baixo, com breques sucessivos abrindo espaços para a fala – comenta. No disco entra ainda Dodói (“eu ando tão dodói/ que quando ando dói/ (...) até meu dom dói”), dolorido e bem-humorado samba-canção em parceria com o próprio Itamar. – Já no final de sua vida, quando se sentia um pouco melhor, ele me ligava para ditar algumas letras, sempre muito curtas. Queria que fizéssemos juntos um repertório para ser gravado por Ná Ozetti ou Zélia Duncan, ou pelas duas. Essa letra foi a que mais me inspirou na época. Ná Ozetti volta a soltar a voz límpida e certeira na valsa Minta (“minta que você sozinho/ fez tanta proeza/ que já tem certeza/ que esse mundo é seu”), parceria com Ricardo Breim. – Jamais tive a intenção de fazer uma valsa. Isso acaba saindo da pegada do violão, quando da harmonização dos primeiros fragmentos melódicos que vêm à cabeça. Às vezes esse procedimento se fixa e acaba regulando o que vem depois – esmiúça. Outros parceiros desfilam no CD, como Chico Saraiva, no enrodilhado e irresistível Baião do Tomas (escrito para o filho de Chico), e Dante (irmão de Ná) Ozetti, na aparentemente singela Brincadeira. Aliás, Tatit, com sua voz frágil e a emissão coloquial (“gosto bem mais do João Gilberto de hoje que dos tempos da bossa nova”), transmite uma (propositalmente) falsa idéia de simplicidade. Como em Tom de quem reclama, “uma cisão entre o cantor personagem e sua própria voz, que pode ser constatada pelas inflexões ascendentes da melodia”, decupa. Ou na espiral envolvente de Terceira pessoa. – Jamais conseguimos falar com a terceira pessoa (ela) sem que esta se transforme em segunda (você, no lugar do tu). Isso acaba fazendo com que a personagem com quem se fala no presente (você) sinta ciúme da outra referida no passado (ela), sendo que se trata da mesma pessoa. Tatit consegue unir arquitetura premeditada e dicção espontânea, como no sincopado samba Controlado ou nas queixas bem engendradas de Tietê (“esse tietê chateia/ não pára de encher/ é só chover”). As idéias, devidamente reformuladas, especialmente quanto ao modelo dos arranjos e à espinha dorsal integrada por dois violões (o outro é o de seu filho Jonas Tatit), procedem das conclusões revolucionárias da época do Rumo: – O grupo explicitava algo que estava implícito em qualquer canção. Ou seja, o acabamento musical de toda composição camufla a entoação que serviu de base ao autor na hora da criação. O Rumo estampava a entoação de origem na linha do canto e ainda propunha que todos os instrumentos de arranjo perseguissem essa linha. Seguindo esse raciocínio, Tatit chega a uma conclusão instigante em relação ao rap (“rhythm and poetry”), uma corrente, de certa forma, paralela ao tipo de música que desenvolve: – O rap é mais uma prova cabal de que a canção relaciona-se com a fala. Ao neutralizar as oscilações de altura, ele reduz ao mínimo as informações passionais, aquelas que falam de encontros e desencontros afetivos. Por isso os temas amorosos estão praticamente ausentes de suas letras. Mas isso já outra história.
[06/DEZ/2005]
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