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Contra a cultura do silêncio
Jornalista que provou em livro ligação entre Perón e Igreja na fuga de nazistas para a Argentina, diz que é preciso revelar a verdade
João Bernardo Caldeira
[07/JAN/2005]
BUENOS AIRES -
Em seu apartamento situado em bairro nobre da capital argentina, Uki Goñi separa um cômodo inteiro para guardar documentos que vêm chocando o mundo. A sabida conexão entre nazistas e o estadista Juan Domingo Perón, ainda hoje um ícone entre os argentinos, jamais havia sido tão bem iluminada até a publicação do livro A verdadeira Odessa (Editora Record, 448 pgs), lançado no Brasil recentemente e em 2002 no exterior. Em contato direto com Adolf Hitler por meio de espiões, Perón organizou a fuga para a Argentina de milhares de criminosos nazistas depois da 2ª Guerra Mundial, com a ajuda de países como a Espanha. O jornalista e historiador denunciou ainda - e provou - o envolvimento da Igreja Católica na operação. Segundo o livro, o Papa Pio XII solicitou pessoalmente a liberação de criminosos de guerra, ameaçados pelo iminente Tribunal de Nuremberg. Depois de seis anos revirando velhos arquivos e bibliotecas, Uki Goñi trouxe à tona verdades adormecidas que ressuscitam fantasmas não apenas da história de seu país, mas de toda a humanidade.
Nascido em Washington e cidadão argentino, Uki Goñi mudou-se para Buenos Aires em 1975, terra de sua família. Desde menino, ouvia em casa a história de que o avô, diplomata nos anos 40, recebera ordens para negar a judeus vistos de entrada na Argentina durante a 2ª Guerra. Depois de investigações, Uki concluiu que seu avô não se rendera às propinas oferecidas e que cumprira a diretiva mesmo não simpatizando com o nazismo.
Descobriu também que, entre 1945 e 1955, o número estimado de fugitivos nazistas que ingressaram na Argentina oscilava entre 30 mil e 250 mil pessoas. Entre elas estão nomes lendários como Adolf Eichman, que comandou a deportação de judeus de toda a Europa para os campos de extermínio, Josef Mengele, médico das SS em Auschwitz, e Erich Priebke, responsável pela morte de judeus em Roma. A aliança entre nazistas e Perón previa até a dominação da América Latina, como mostra também outro livro recém-publicado, Crônica de uma guerra secreta, do ex-diplomata brasileiro Sergio Corrêa da Costa (Record, 532 pgs.).
As revelações geraram repercussão imediata. O governo americano solicitou às autoridades argentinas que os documentos sobre o assunto fossem tirados da gaveta. Comissões para investigar o tema foram instauradas na Argentina e na Itália, onde causaram enorme rebuliço as evidências que levam até o Vaticano. Também na Itália, Erich Priebke abriu um processo contra o livro alegando que não havia cometido crimes de guerra. Uki ganhou a causa e, com ela, maior credibilidade ainda.
Passado o tormento da repercussão, refletida também nas páginas dos principais jornais do planeta - do New York Times ao Le Monde, do The Guardian ao La Stampa -, Uki Goñi aparenta tranqüilidade, mesmo ao constatar que perdeu amigos e jogou pela janela sua vida pessoal. Compensa mais a leveza de ter pago qualquer dívida que seu avô tenha deixado.
Ele se sente satisfeito também com a certeza de que, por trás do livro, há uma postura ideológica que vai contra a tradição argentina. Ele faz uma conexão direta entre a atuação de Perón durante a 2ª Guerra, a ditadura militar nos anos 70 e a crise econômica na década de 90. Nos episódios recentes mais marcantes da história de seu país, o clima de impunidade serviu de base para que fossem tolerados o relacionamento com criminosos, o anti-semitismo, a tortura e a corrupção. Atos moralmente questionáveis, acredita o jornalista, foram camuflados pela cultura do encobrimento que faz da Argentina um poço de silêncio.
A barba e os cabelos bem mais grisalhos do que em fotos de anos anteriores e a voz pausada nos momentos mais densos mostram as mazelas de um homem que mergulhou nas profundezas da alma argentina e revirou um baú de tabus familiares, mas também botou um espelho bem defronte de todos. Ao lutar contra o culto ao silêncio em seu país, Uki Goñi acabou provando que as conexões nazistas eram bem mais extensas e supranacionais do que se podia imaginar. E divide com o mundo um passado de barbárie e omissão.
- Por que os nazistas vieram justamente para a Argentina?
- Perón decidiu traçar uma rota de fuga. Pouco antes de morrer, em memórias reunidas num livro, ele afirmou quão injusto era para ele o Tribunal de Nuremberg. Além disso, existe uma velha ligação entre argentinos e nazistas. Já nos anos 30 Perón formou uma aliança para trazer tecnologia alemã. Ele conspirou contra o governo dos países da América Latina, com conexões com grupos fascistas no Brasil, e conseguiu derrubar o governo boliviano. Quando a Alemanha começou a perder a guerra, todos esses planos foram abortados.
- Havia ideais políticos em comum?
- Os nacionalistas argentinos não viam diferença entre capitalismo e comunismo, ambos inimigos porque eram dois sistemas nascidos da Revolução Francesa. A Argentina defendia uma terceira posição, de formação de um Estado católico. Quando Carlos Goyeneche, espião de Perón, se encontra com Heinrich Himmler, líder da SS, ele tenta justamente convencer os nazistas a aceitar o catolicismo e parar de lutar contra eles. Himmler então disse: ''Quando você visitar o papa, diga a ele que sou simpático às idéias católicas''.
- Existiam planos para o pós-guerra?
- Perón e os nazistas estavam totalmente convencidos de que haveria uma terceira guerra mundial contra o comunismo, em 48 ou 49. E a intenção era que depois que os alemães ganhassem a 2ª Guerra eles poderia ajudar a Argentina a se tornar o poder dominante na América do Sul.
- Você revelou a idéia de que a Argentina poderia conduzir um acordo de paz...
- É verdade. Mais uma idéia maluca argentina. Goyeneche achava que a Argentina poderia mediar um acordo para estabelecer a paz, com a ajuda da Igreja, entre Berlim, Londres e Washington. Havia uma espécie de sentimento de superioridade porque somos brancos.
- Quando a primeira versão do livro foi publicada, não havia evidências do envolvimento da Igreja com a rota de fuga. Como depois você conseguiu as provas?
- Quando o livro saiu em Londres, concordei com as críticas de que eu sugeria algo que não estava documentado. Como os arquivos da Igreja são fechados para historiadores, vasculhei documentos de governos com quem o papa se comunicou. Finalmente achei no Escritório de Registro Público de Londres cartas em nome do papa pedindo a liberação dos piores criminosos de guerra. Naquela altura, em 1947, o governo inglês recusou o pedido porque eles seriam julgados.
- Você mostrou ainda que EUA e Inglaterra permitiram a fuga para a Argentina...
- Durante a guerra, os EUA fizeram enorme pressão contra a Argentina, e depois do fim do conflito estavam empenhados em levar a julgamento criminosos e colaboradores em países como Bélgica, França e Croácia. Mas, quando a guerra fria começou, eles encerraram o assunto. Um acordo secreto entre Londres, Washington e o Vaticano firmou que a Argentina seria o país para onde os nazistas poderiam ir.
- O que o motivou a escrever o livro?
- Quando vim morar na Argentina, fui trabalhar num jornal que era o único a publicar o que estava acontecendo na ditadura, histórias mães cujos filhos eram seqüestrados. Fiquei intrigado com a minha geração que se recusava a falar sobre isso e tinha na parede um pôster do Bob Dylan ao lado de um de Péron, sabidamente ligado aos nazistas. Não pode ser coincidência que esses crimes tenham acontecido num país que deu refúgio para criminosos de guerra. Queria tentar entender uma sociedade que se diz aberta, mas que cultiva um silêncio que priva a Argentina de se tornar uma democracia plena. Assim como hoje há silêncio em torno da corrupção no governo.
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