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Belo filme sobre o ser e o parecer


Suzana Vargas*

''A galeria é um território de aparências'', diz-nos um apressado narrador-protagonista ao descrever as lojas de uma pequena galeria onde mantém com a mãe uma de lingerie. Esse é o cenário a partir do qual ele nos conta sua história pessoal - fundo e superfície de O abraço partido. A câmera, como o narrador, vai percorrendo lojas totalmente envidraçadas onde, a princípio, é impossível esconder alguma coisa.

Para o próprio Ariel Makarov, neto de poloneses, tudo parece tão límpido como num aquário nesta comovente história, cuja questão inicial - ''ser ou não ser polonês?'' - vai se metamorfoseando em algo mais profundo e menos aparente.

O abraço partido divide-se em episódios inicialmente desencontrados que se encaixam como peças num jogo de armar. Temos no microcosmo da galeria histórias como a de Rita, a gostosona do pedaço, funcionária de uma loja de internet, a dos Irmãos Levin, donos de um negócio de tecidos que literalmente tecem uma falsa filiação em nome da empresa, e as de tantos outros personagens que têm importância muito maior na trama do que o tempo em que a câmera neles se demora.

A fotografia de César Lerner é implacável com a capital argentina, transformada em feira livre. A galeria é um espaço de negócios frenéticos e ócios insuspeitos.

Quem somos nós? é a pergunta constante de O abraço partido. O que se esconde sob nossa aparente placidez: engenhosidade ou inocência? Qual a medida de nosso passado, de nosso tempo?, como pergunta Rita. Somos, de fato, apenas às vezes ou de cinco em cinco anos? Somos, ainda, nossa foto de passaporte? Nossa imagem e nossa cultura de internet podem de fato nos transformar em judeus, poloneses ou italianos?

O que mais impressiona para além desta bem urdida história de velamentos e desvelamentos é a agilidade com que as imagens acompanham o fluxo narrativo de Ariel. ''Preciso ser polonês urgentemente'', resolve o protagonista, e a câmera segue sua desabalada corrida aos saltos na calçada após conhecer o namorado da mãe.

Às vezes drama, muitas vezes comédia, o roteiro de O abraço partido privilegia falas breves, significativas, e se transforma em show de imagens, caracterizadas pela proposta geral da trama. Os excessos dramáticos de Sonia, a mãe, vivida por Adriana Aizemberg, contrastam com a contenção verbal de Elias, o pai (o ator Jorge D'Elía), onipresente em todo o filme, como a chuva. Enfim, chove em Buenos Aires (na América Latina?) entre o ser e o não ser argentino. Chove no passado e no presente, numa galeria onde todos são mais que negócios.

No belo filme do diretor Daniel Burman, essas surpresas empurram seu protagonista para a vida, uma vida aparentemente sem saída entre o ser e o parecer. E qual a solução? Talvez cantar para dentro, como faz a avó de Ariel. Ou então estender a única mão de que dispomos para um abraço mais total.

*Poeta e coordenadora da Oficina de Leitura e Escrita Estação das Letras


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[12/NOV/2004]


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