E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Especiais

Fashion Rio 2004
Chico Buarque
Festival do Rio

Colunistas

A ilusão de uma Buenos Aires européia


Carlito Azevedo*

Ir ou ficar? Eis a questão que passou pelo menos uma vez na cabeça de milhões de argentinos diante da crise social que, conseqüência de um desastre econômico, pôs a nu a condição terceiromundista do país. Reformulada, a questão também pode ser assim expressa: uma vez quebrada a ilusão de ''nação européia'', por que não ir viver numa nação européia ''de verdade''?

É essa a decisão do jovem Ariel Makaroff, que pleiteia um passaporte polonês a fim de emigrar para a Europa. É esse o tema do filme O abraço partido.

Mas essa história seria pouco mais do que comum se não fosse cercada por uma série de micro-histórias que abordam essa mesma oscilação entre ''deslocar-se'' e ''permanecer'' de vários pontos de vista, como que contrabalançando o desenvolvimento da trama principal. Como que sugerindo a impossibilidade de haver uma resposta única compatível com toda a variedade de sentimentos humanos.

Há, por exemplo, a micronarrativa da abelha-rainha trazida da Europa para produzir uma colméia em Buenos Aires, trazendo o tom da inadaptação. Há a micronarrativa da jovem Lituana, dando o tom da adaptação. Há a narrativa dos avós de Ariel, expulsos da Polônia pela ascensão nazista e refugiados na Argentina - e aqui vamos desde as pequenas humilhações de Ariel para a obtenção do passaporte polonês, até o desejo da avó de queimar o passaporte do país que a expulsou. Há a micronarrativa de um rabino da região que é deslocado para Miami. Há o pai de Ariel, Elias Makaroff, que abandona a Argentina para lutar na guerra de Yom Kippur, em Israel, e nunca mais retorna, espalhando as tonalidades de heroísmo e covardia.

O filme se passa no bairro comercial do Once, uma espécie de Saara de lá. E sua ação transcorre quase integralmente na galeria comercial onde fica a loja dos Makaroff. A galeria é uma espécie de colméia que a todos captura com sua cera, como provam as recorrentes carreiras de Ariel pelas ruas: por mais que corra e fuja, sempre reaparece dentro da galeria, como se as membranas do bairro fossem intransponíveis. O mesmo ocorre com o casal coreano, que só está naquela galeria porque na dos coreanos não havia vagas, mas, quando surge uma, ambos decidem ficar.

Enriquece o filme um tipo ainda mais microscópico de narrativa. É o que podemos chamar de ''falsas parábolas'', ou ''parábolas intranscendentes''. Apesar da forte presença do judaísmo, desde o início fica claro que as parábolas bíblicas tradicionais não podem mais ser usadas como norma de vida para o olhar irônico de Ariel, que duvida de algo como a ''transmissão de experiência''. Já as ''parábolas intranscendentes'', por não fazerem muito sentido nem se completarem num todo coerente e simbólico, acabam sendo mais úteis.

Talvez por não terem a pretensão da imposição, podem ser aceitas como coisa a que valha nos apegarmos. Falo daquilo que poderíamos chamar ''a parábola do vidro de maionese'', ''o milagre do rádio quebrado''. Pequenas lições sem lição alguma, milagres nada milagrosos, até demasiado humanos, e que por isso mesmo nos parecem mais verdadeiros.

*Poeta, editor das revistas 'Inimigo rumor' e 'Ficções' e autor do livro 'Sublunar'


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[12/NOV/2004]


   Home > Caderno B


Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | JB Barra | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem
Acelera | Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas