Metalinguagem

Massacration, banda de metal do programa de humor 'Hermes e Renato' faz sucesso a sério e vai gravar CD

Alexandre Werneck

[12/NOV/2004]

Massacration é a maior banda de heavy metal do mundo. Juntos, Detonator, o vocalista castratti capaz de alcançar agudos meteóricos; Blond Hammet, o guitarrista virtuose que estilhaça qualquer coisa com seus rifs; Jimmy Hammer, o baterista destruidor; Headmaster, mestre guitarrista; e Metal Avenger, baixista de renome, chegaram a tocar para públicos de mais de dois milhões de pessoas e gravaram 77 CDs, que venderem muitos milhões de cópias.

Pois é, o limite entre a galhofa e a realidade pode ser mesmo muito tênue. Obviamente, tudo isso aí em cima é mentira, apenas parte do mito da banda fictícia criada pelos irreverentes rapazes petropolitanos da trupe de humor escrachado Hermes e Renato, que faz sucesso na MTV. Mas o que faz do Massacration uma piada curiosa é que esse negócio não é tão mentira assim.

A banda de rock de mentira entra em breve no estúdio para gravar um CD, o primeiro. O que acontece por conta do sucesso que eles têm feito em shows de verdade, em que tocam de verdade. Bruno Sutter, o Detonator, de fato alcança notas altas impressionantes. Fausto Fanti, embora diga que só engana, faz mesmo longos e elaborados solos de guitarra como Blond Hammet, e os outros integrantes, respectivamente Felipe Torres, Adriano Silva (que encarna um dos personagens mais famosos do grupo, Joselito) e Marco Antônio Alves (o Hermes) realmente fazem música. É assim, no limite entre tocar a sério e cantar letras escrachadas em inglês sem nenhum sentido e satirizar as cabeleiras, as roupas de couro e outros clichês do heavy metal, que os humoristas começaram a agradar aos fãs... de heavy metal. Tanto é que começaram a abrir shows do Sepultura e agora estão fazendo suas apresentações solo.

– A gente não se vê como uma banda. Não podemos perder de vista o humor – diz Fausto, o mentor intelectual do grupo (intérprete do personagem Renato), que usa uma peruca de longas madeixas louras e óculos escuros para viver seu personagem no Massacration.

Já Bruno Sutter, que usa uma cabeleira escura também falsa, banca a vida no limite, como bom rocker: – No princípio, era puramente humor, depois comecei a levar mais a sério. A banda apareceu no que era para ser apenas um quadro de um episódio do programa. A gente não tinha pretensão nenhuma de que tudo tomasse essa dimensão. Para ser sincero, a gente esperava até uma certa repulsa dos fãs de heavy metal.

Mas não foi bem o que aconteceu. Felipe Andreoli, baixista do Angra, uma das bandas mais importantes do cenário metal brasileiro, acha que a banda de mentira joga algumas verdades oportunas na cara dos metaleiros:

– É muito bom que alguém brinque com essa imagem carrancuda do heavy, que não existe. Eles pisam no calo de um pessoal que ainda é radical com esse clichês.

Ao pé da letra. A primeira música do Massacration, Metal massacre attack, de 2002, junta uma série de frases clichê com longas seqüências de “Raru-êêêêêêê” e “Raru-ôôôôôôô”. Aliás, é por esses trechos que a música é mais conhecida.

– As vogais “a”, “ê” e “ô” são preponderantes no heavy metal – explica, professoral, um sério e pensativo Bruno Sutter.

E ele completa: – Geralmente, no metal, não se entende nada da letra, mas se canta. O Massacration faz isso, mas com versos descaradamente sem sentido. A maioria dos adolescentes que escuta metal não sabe nada de inglês mesmo. E essa é uma das principais sátiras.

O sucesso de Raru-ê Raru-ô no programa, exibido nas noites de domingo, levou a MTV a colocar o grupo para tocar na entrega do Video Music Brasil (VMB) de 2002. Mas o maior sucesso da banda é mesmo Metal bucetation (sic), de 2003. A letra, por motivos de preservação dos bons costumes, dispensa apresentações. Mas os solos de guitarra e os gritos, inspirados na banda nova-iorquina Manowar (considerados por si mesmos “reis do metal”), contagiam o público que bate cabeça nos shows e exercita os lugares-comuns do gênero. – Todos os estilos musicais têm seus clichês. Mas o metal tem características particularmente interessantes. Por exemplo, o Manowar: os caras se vestem ridiculamente, com roupas de couro. Pode-se fazer facilmente uma analogia entre eles e o Village People (grupo que canta clássicos disco como YMCA e Macho man). Não há como não achar engraçado – diz Bruno. E como todo mundo achou engraçado, a coisa cresceu e o clipe de Metal milkshake passou a ser exibido na programação regular da MTV. Mas o maior toque de seriedade veio em setembro, quando eles abriram os shows para o Sepultura no Sepulfest. No mês passado, a nova música, Serial metal, foi apresentada na festa do VMB 2004, à qual eles chegaram em um tanque de guerra estilizado.

– Fazemos uma sátira ao estilo metal dos anos 70, do poder do metal, da idéia de que o metal vai fazer você ficar forte. O maior clichê é essa coisa da pose – diz Fausto.

Mas será que a banda não começa a ficar mais famosa que o próprio Hermes e Renato? – O Massacration não rouba nossa audiência. Somos nós mesmos ali no palco – diz Fausto, apelando para a lógica.

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