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'Morando dentro do tema'

Autor de livros em que mistura ficção à sua vivência na periferia, Ferréz não deixa o Capão Redondo, onde nasceu

Cecilia Giannetti

Divulgação

Ferréz: com o bairro do Capão Redondo ao fundo

Capão Redondo, bairro da periferia paulista. Por trás do balcão da padaria, o menino Reginaldo Ferreira da Silva vê o carro da polícia parar em frente. Um grupo de policiais armados desce e faz ao garoto um pedido um pouco insólito. Precisam de baldes d'água e um pano para limpar o carro. Iam transferir um cadáver para outro veículo. A viatura tinha que ficar limpa. Quem conhece o texto de Ferréz, de 27 anos, encontra nessa história da infância do escritor traços vivos da literatura que produz hoje.

O sucesso de Capão pecado (Labortexto, 2002) não o tirou do bairro que inspirou o livro. Nascido em Valo Velho, região do que é considerado um dos bairros mais violentos de São Paulo, Ferrez continua, como diz, ''morando dentro do tema''. Alia ficção à vivência na periferia para construir um texto veloz, sem barreiras com a realidade. Combinadas com a militância do escritor no Capão, essas características geram polêmicas com outros autores. Em debate na 18ª Bienal do Livro de São Paulo, na última semana, Ferrez contou ao público sobre uma crítica que recebera naquela semana - por telefone - de Marcelo Mirisola. O autor de Bangalô (Editora 34) e colunista do site America On Line teria dito que Ferréz não faz arte, mas está ''concorrendo para virar santo'' e que a literatura de verdade não deveria abordar questões sociais.

- Falar da realidade e não interferir nela é hipocrisia. Não posso ficar no meu escritório escrevendo sobre o que acontece sem fazer nada - contra-ataca Ferréz.

E esquenta a polêmica:

- Esses caras erraram ao escolher o nome Transgressores para aquele livro [refere-se à coletânea de contos da editora Boitempo, de que Mirisola faz parte]. Não tem nada de transgressão em sentar num barzinho da Vila Madalena e beber chope.

Para Mirisola, é arte pela arte ou nada:

- Eu acho muito perigoso dizer que a literatura pode tirar alguém da marginalidade. O que ele faz é assistência social - rebate.

Alfinetadas à parte, Ferréz procura maneiras de modificar o bairro, que tem poucas opções de lazer e cultura. Sua empreitada mais recente é a compra de uma casa para construir uma biblioteca e tornar mais fácil o acesso a livros no lugar. Ele não esquece que, para que descobrisse a leitura, foram necessárias duas coincidências:

- Comecei a ler gibi por acaso: um cara largou uma revista da Marvel num banco. Eu catei, mas só depois de ver se ele não ia voltar pra pegar. Minha mãe não deixou eu encostar na revista até ter certeza - conta.

Quando as histórias em quadrinhos não davam mais conta da curiosidade de Ferréz, veio o segundo acaso: ao levar um frango assado para um vizinho em dificuldades, encontrou livros que a mãe do garoto deixara ao abandonar a casa. Entre os títulos, Sidarta, de Herman Hesse, chamou-lhe a atenção. Foi o responsável por fazê-lo trocar os quadrinhos pelos romances. A partir daí, passou a visitar sebos em busca de livros a preços acessíveis. Foi assim que leu ''o que ninguém queria mais'' - João Antônio, John Fante, Bukowski e os beatniks. Nenhum deles, no entanto, merece o destaque que Hesse tem em sua casa.

- Tenho uma foto dele em cima da mesa. Tem gente que olha e pergunta se é meu avô - ri.

Popular nas ruas do Capão, onde o esgoto corre a céu aberto, Ferréz tem aproveitado a fama para criar oportunidades para a vizinhança. Recebe currículos de seus leitores e vizinhos desempregados que repassa a voluntários da platéia de suas palestras dispostos a ajudar. A transação é informal.

- Vem sempre alguém falar comigo no final de uma palestra. Às vezes a pessoa sabe de uma vaga numa empresa, eu conheço gente que precisa trabalhar e encaminho - explica. Com um novo livro, Manual prático do ódio (Editora Objetiva), o autor se considera uma referência para a comunidade onde nasceu:

- Sou um bom exemplo pros moleques, do tipo que a mãe pode apontar na rua e dizer: ''aquele ali é escritor. Tem que estudar pra ser que nem ele''. Da mesma maneira, muitos rappers da área deram certo e ficaram por ali, pra servir de exemplo, fazer palestras, ajudar.

A revista Literatura Marginal, que publica em parceria com a Caros Amigos, faz parte do plano de ação. Uma parte dos exemplares é destinada a penitenciárias e à Febem. A venda dos demais serve para patrocinar a próxima edição e pagar os autores publicados. Outra ferramenta é o hip hop, com que Ferréz já trabalhava antes de ser escritor, compondo para grupos como Detentos do Rap. Em janeiro, atacou de MC, lançando o CD Determinação, com participação do amigo Arnaldo Antunes.

Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, também faz parte do seu círculo de amizades. Apesar da temática do trabalho de cada um cruzar-se em alguns pontos, Ferréz aponta influências diversas:

- É que ele foi universitário, é professor [Ferrez parou de estudar no terceiro ano]. Já eu não leio pesquisas sobre questões sociais, geralmente são escritas por quem não entende a realidade direito.

Romances que tratam de um panorama distante do que é vivido pelo autor também não fazem a cabeça de Ferréz. Ele cita como exemplo Inferno, de Patrícia Melo, sobre a vida de um garoto que se torna líder do tráfico de drogas em um morro carioca.

- Tem gente usando os pobres para ganhar dinheiro.

Ferráz também tem ressalvas quanto a outros autores que abordam em seus textos a realidade marginal, como Fernando Bonassi e Marçal Aquino:

- Eu vejo muitas falhas nesses textos, apesar de achá-los bons escritores. Quando um cara entra num bar e a bala come, é só ''pipoco'', não tem diálogo. Se der tempo de gritar alguma coisa, é só ''PQP''. Na descrição deles [ os autores], o pessoal diz: ''Nossa!''.

Para o escritor, o contato com o ambiente que o inspirou a escrever é essencial para que continue envolvido com literatura. Diz que maior parte dos autores têm cheiro de naftalina, como se vivessem guardados:

- Não consigo desvincular realidade de literatura. O escritor tem de estar vivo, presente na comunidade. O problema é de todas as classes, mas fica difícil resolver porque a única representação do Estado que a favela conhece é a polícia.

Curiosamente, diante da chance de levar o cotidiano do Capão para as telas de cinema, Ferréz recuou. Quando o produtor John Daly (de Platoon) o procurou, interessado em transformar Capão pecado em filme, pesou contra a idéia o medo de marcar o bairro com uma imagem negativa:

- Ultimamente, estão abrindo lojas lá e isso gera empregos. Mas os investimentos iam parar se fizessem um filme violento sobre o Capão. Decidi não fazer - afirma.

Levado a uma ''boate de rico'' por Daly, ele testemunhou a violência que não nasce na pobreza:

- Saiu uma briga daquelas, no meio dos boys. Pensei: ''pô, tô no Capão''!

Na mesma semana em que participou do debate na Bienal de São Paulo, Ferréz apareceu no programa Usina, da MTV, para discutir sobre segurança e criminalidade. O canal de música garantiu uma platéia semelhante a que o rodeou na feira de livros: predominantemente jovem, com camisetas de grupos como Ramones e Nirvana e cheios de perguntas.


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[21/ABR/2004]


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