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Um anti-herói em Cannes


Divulgação

O cartunista Harvey Pekar, hoje com 65 anos: saudado com celebridade no festival francês

Shari lembra o pano de fundo dos anos 70 ao qual a obra de Pekar remete, o que conduz a um cinema que começou a flexibilizar os limites entre real e ficção ao incorporar elementos do neo-realismo e do cinema direto, um John Cassavets, por exemplo. Mas Pulcini acha que há uma crítica bastante atual a ser feita a partir de Anti-herói americano à indústria cultural:

- Toda essa onda reality-shows não tem nada a ver com realidade. Pelo contrário, está muito longe dela. São narrativas ficcionais moldadas na maneira como nos acostumamos a ver o real mostrado nos filmes e nos noticiários.

O que, segundo os diretores, leva à crítica mais contundente de seu filme, a cultura das celebridades:

- Quando fomos para Cannes [onde o filme arrebatou o prêmio da crítica internacional na mostra Un Certain Regard], nos deparamos com aquele lugar cheio de celebridades. E Harvey não é de jeito nenhum glamouroso. Mas ele andava pelas ruas e era parado para dar autógrafos. E lembro de ter pensado: ''Meu Deus, Harvey virou uma celebridade!'' - conta Shari.

Celebridade mesmo, no filme, no máximo a atriz Hope Davis. Conhecida no circuito independente, ela foi uma das maiores fontes dos elogio ao filme, ao incorporar a neurastênica esposa de Pekar. Segundo Shari, o melhor em sua interpretação foi o fato de ela não ter tentado transformar Joyce Brabner numa personagem de Woody Allen:

- Todas as atrizes que fizeram teste para o papel deram a ela aquele estilo mulher-neurótica-de-Nova-York. Ela lhe deu inteligência e emoção, não apenas humor. Porque a personagem é engraçada, neurótica, mas é uma pessoa real, inteligente e cheia de compaixão, o que aparece em todo o trecho do filme em que Pekar sofre de câncer. Ela o ama e luta para salvar sua vida.

Os diretores se surpreendem com a notícia de que seu antigo professor brasileiro se tornou, como eles, documentarista.

- Vimos vários filmes sensacionais de Nélson Pereira dos Santos, como Rio Zona Norte e O amuleto de Ogum. Ele nos influenciou muito e não surpreende que tenha se tornado documentarista. Há um realismo forte em seu cinema - diz Pulcini.

O que, para Shari, parece ser uma marca do cinema brasileiro:

- Há vários filmes brasileiros excelentes hoje justamente porque lidam com essa relação com a realidade. Cidade de Deus e os filmes de Walter Salles são bons exemplos.


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[20/ABR/2004]


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