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Almanaque do Mauro Santayana

Um homem entre outros


As últimas horas deveriam ter sido passadas na meditação de todos nós, cristãos ou não. De tal forma, a mensagem atribuída a Cristo se inseriu na construção histórica do Ocidente que ela nos serve de orientação, na vida pessoal e na vida coletiva. Se a vida de Cristo foi apenas uma lenda, baseada nos muitos e pequenos pregadores, andarilhos no mundo judaico - que vinha padecendo de demorada decadência e estava sob o domínio de dois estrangeiros, o árabe Herodes e o romano Pilatos - devemos examiná-la com o mesmo respeito. Os que deram força à narração de seus feitos - sobretudo Paulo de Tarso - procuraram elaborar o mais forte dos mitos, na construção de um ser perfeito, e perfeito com suas debilidades. Entre essas fragilidades, que atestavam a sua natureza humana, estava a de tentar esquivar-se de seu destino doloroso, ao pedir ao Pai que dele afastasse o cálice da amargura e, no momento mesmo da morte, queixar-se por ter sido abandonado, com o corpo pregado em uma cruz, os lábios embebidos de fel, a túnica sendo disputada nos dados pelos que o crucificavam.

De tal forma anda conspurcada a palavra política, que nos constrange examinar o cristianismo como o mais notável exemplo de movimento político. A Igreja deslocou, no século 4, o paganismo como a fé que tutelava o Império, ao cooptar Constantino; era a vitória política daquele pequeno grupo de judeus e conversos, que haviam fundado células revolucionárias pelas margens do Mediterrâneo, mas isso não significou a reconstrução de Israel, como nisso pensavam alguns dos primeiros conspiradores. O movimento, que não pôde dominar sua pátria, dominou o mundo. Cristo deixou de ser o revolucionário palestino, para converter-se em condutor da história do Ocidente.

Todas as seitas cristãs são menores do que Ele, em sua transcendência no tempo. Na realidade, Ele vem crescendo, século a século, como a sólida referência da paz. Sua presença é moderadora, porque, sem Ele, que, foi, com sua vida e a fé que inspirou, a testemunha do Absoluto, o mundo teria voltado ao caos. Dizia Nietzsche que se Deus não existe, tudo é permitido. E os crentes sabem que Deus - tal como os cristãos O concebem - só existe porque Cristo nos fez essa revelação.

Os candidatos à Presidência - e pelo que sabemos, todos se dizem cristãos - fariam bem se aproveitassem este sábado e o domingo da Páscoa, a fim de reler algumas passagens do Evangelho, sobretudo do Evangelho de João que, por ser o mais poético, é o mais sólido. E meditassem, sobretudo, o seu trecho final, quando o apóstolo narra a morte de Cristo no Calvário, em sua cruz entre duas outras cruzes. Ou, na força do texto evangélico, ele, entre dois outros. Não entre dois ladrões, ou dois malfeitores, como os qualificam os outros evangelistas, mas entre dois outros, homens iguais a Ele.

(Este foi, segundo depoimento de Abgar Renault, o primeiro poema escrito por Drummond, quando ainda não tinha 20 anos. Nunca foi editado e - apesar do texto ainda indeciso do iniciante - vale a pena ser conhecido, exatamente por ter sido o primeiro. Está no texto A Aventura Modernista, de Abgar Renault, republicado pela Revista da Academia Mineira de Letras, volume XXVI, de setembro de 2002).

Contos de bolso

Memória do pânico

Aquela pode ter sido a mais angustiante das minhas noites, se é que Deus me dispensará de alguma pior. Hoje, quando me recordo daquelas horas, ainda sinto como se um caco de vidro arranhasse os meus nervos, da pele aos miolos. Mas se consigo domar a emoção, e rever, com clareza, tudo o que me cercava, entendo que o medo não estava nas árvores da praça, quase um pequeno parque, na lua clara, nas nuvens - escuras porque era noite - nem nos ruídos que vinham das sombras. O medo estava dentro de mim.

Desconhecia a cidade a que cheguei com o anoitecer daquela Sexta-feira Santa, quando se desfazia a Procissão do Enterro. Cruzei com as pessoas que carregavam velas ainda acesas e seus rosários. Vi que era uma cidade de pavorosa fé: as senhoras choravam, porque Cristo estava morto, e os homens bebiam no bico das garrafas, com os olhos baixos, como se houvessem assistido à crucificação real de algum irmão e amigo. Só as crianças saltavam e riam, em sua dúvida rebelde. Estou quase certo de que ouvi, de um grupo delas, estrofes blasfemas na paródia das ladainhas da Paixão. Com gente tão religiosa, seria inútil pedir o pouso de uma noite, com seu prato de sopa e o pedaço de pão. Naquelas horas, e ali, pude pressentir, qualquer desconhecido seria cúmplice de Judas, qualquer vagabundo - e era meu caso - espião de Pilatos, emissário dos demônios.

Havia o banco de cimento, oferecido pela Pharmácia do Teóphilo, com o velho ph, como estava inscrito em seu espaldar, e nele me acomodei. Esperava que as ruas, em raios assimétricos, esvaziassem a praça, para fazer de minha bolsa de lona o travesseiro, e me acomodar para dormir bem, como era de meu hábito em circunstâncias parecidas naqueles tempos árduos. De repente, o arrepio tomou conta do corpo. Minha pele tremia como as águas de uma lagoa, sob o vento moleque das manhãs. Dentro da barriga houve o espasmo gélido, o suor molhou o corpo, os olhos se esbugalharam, mas eu não via nada de diferente. Não havia fantasmas transeuntes, nem assassinos com seus punhais brilhantes ao luar. Era só a noite, muito clara, como se hesitasse em assumir o dever de ser noite. Senti que alguma coisa viria, e acreditei, de repente, nas entidades das quais sempre zombara: lobisomens, mulas sem cabeça, dragões de narinas em fogo. Imaginei que escorpiões cresciam para devorar-me, como se eu fosse inseto rasteiro. Não conseguia mover um só dedo, estava à espera da morte, e isso impõe certa cerimônia.

Ouvi o relógio tocar a meia-noite. Talvez fosse o da casa do padre, ao lado da igreja, que, ao contrário do que deveria ser, dava as suas costas para o centro da praça. Fora o relógio, só houve o silêncio. Esperava que o pio de um curiango, o passar de algum cachorro vadio, e mesmo o miar de um gato - e sempre os detestei - me assustasse, para desencantar-me do medo, mas não houve nada. Foi a mais longa das noites, e eu a vivi como se fosse o crepúsculo da eternidade. Pode ser que eu tenha dormido, e o medo fosse só pesadelo, porque, pelo que me recordo, o sol se esparramou de repente pela praça, e vi o céu limpo, bem azul, os morros circundantes, as pessoas que se preparavam para malhar o Judas, já pendurado no galho de uma das árvores.

Tratei de prosseguir logo em meu caminho, com o estômago vazio, o corpo dolorido. Não passaria outra noite naquela cidade, que talvez tenha sido, com o medo e a assustadora procissão, apenas mais um de meus constantes pesadelos. Não quis saber seu nome, que pode ser de um santo padroeiro, ou de dissimulado e espertíssimo demônio.

DOS ARQUIVOS DO REPÓRTER

A morte da cigarra

Se Louis Wizniztzer, judeu nascido no Rio de Janeiro e cidadão suíço, houvesse persistido no exercício da indagação filosófica, provavelmente teria ocupado bela posição acadêmica em seu tempo. Discípulo de Heidegger, era visto pelo mestre como promessa brilhante. Mas Wizniztzer, que de Freiburg se transferiu a Paris, para fazer o doutorado em filosofia pura na Sorbonne, se tornou jornalista, sem nunca haver freqüentado uma redação de jornal, a não ser como visita. Fascinado por seu mestre, Louis, que era muito bem relacionado no Rio (seu pai, Aron Wizniztzer, historiador e homem de negócios, editara excelente estudo sobre os judeus no Brasil), fez, em 1948, entrevista detalhada com o autor de O Ser e o Tempo para o suplemento de Letras e Artes do jornal A Manhã, que se editava no Rio. Duas semanas depois de publicado o trabalho, um diplomata brasileiro matou a mulher em Paris. O jornal pediu a Wizniztzer que trocasse provisoriamente a filosofia pela reportagem policial e lhe encomendou matérias sobre o caso. Wizniztzer se fez repórter e cobriu, para jornais brasileiros - e, depois, para publicações estrangeiras - os mais variados assuntos, no mundo inteiro, durante mais de 50 anos. Tornou-se amigo de alguns grandes deste mundo, como Norodon Sihanuk, Jimmy Carter (sobre o qual escreveu um livro) e algumas estrelas de Hollywood, onde passou alguns anos como correspondente. Em 1958, quando procurava entrevistar Fidel na Sierra Maestra, foi detido pela polícia política de Batista, e o caso teve grande repercussão no Brasil.

Nós nos encontrávamos com freqüência em Havana - depois da Revolução - em Praga, em Paris, em Bonn, em Roma, em Madri e no Brasil.

Wizniztzer era hedonista assumido. Gostava de bons vinhos e belas mulheres. Não tinha a postura de galã: baixo, redondo, avermelhado, prematuramente calvo, era - talvez pelos seus olhos sempre brilhantes - bem-sucedido com as moças. Savério Tuttini, repórter de L'Unitá, jornal comunista de Roma, disse-me que, no Festival de Cinema de Veneza, Wizniztzer estava sempre bem cercado de starlets. Ele foi casado três vezes, com mulheres encantadoras, e todas elas tinham o mesmo nome, Martine. Conheci a segunda e a última, que é uma especialista em livros didáticos e, na época, trabalhava na Gallimard, ou na Hachette, não me lembro bem.

Wizniztzer tinha a consciência da fatalidade. Como nunca guardara dinheiro e não se prevenira com algum tipo de previdência privada, temia a decadência e a velhice. Decidira que, aos 70, se mataria. Dizia, misturando o francês e o português, que não nascera para viver como fourmi, mas para ter o destino das cigales. Todos os anos vinha ao Brasil, para assistir ao réveillon desde um apartamento do Hotel Excelsior, em Copacabana. Passava, invariavelmente, uma semana em Florença e duas semanas em Capri, no verão. Na última visita ao Brasil, veio ver-me em Brasília e confirmou que era a despedida. Não dei importância ao aviso. Minha mulher me advertiu que ele estava falando sério. Disse-lhe que viesse para o Brasil, e que aqui não lhe faltaria a solidariedade na velhice, e algum trabalho, porque a sua experiência nunca seria desprezada. Prometi-lhe, era o que eu podia fazer, um quarto em minha casa, um lugar à mesa e os pássaros soltos e as plantas do jardim. Ele sorriu e afirmou que não viveria à custa de ninguém.

Meses depois, recebi sua última carta. Era uma circular, enviada a todos os seus amigos no mundo - e eram muitíssimos. Em alemão, francês, inglês, italiano, português e espanhol, uma só frase: Louis Wizniztzer está morto.

Cumprira a palavra. E o imagino (o selo da carta trazia a data da morte) passando as suas últimas horas despachando as centenas de cartas pelo Correio, antes de misturar o veneno com iogurte, como disse que faria para não sentir dores, vestindo-se com alguma cerimônia, e deixando o mundo em que vivera muito bem.


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[15/ABR/2006]


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