Diplomacia brasileira perde controle sobre reunião, recheada de críticas a Israel
BRASÍLIA -
A Cúpula América do Sul-Países Árabes, aberta ontem pelo presidente Lula, se transformou exatamente no que o governo brasileiro tentou evitar nas últimas semanas: um palco dos árabes para fazer campanha na América do Sul contra a ocupação israelense em territórios palestinos, com referências indiretas também à invasão do Iraque pelos Estados Unidos.
O evento, que inicialmente tinha um objetivo econômico, acabou ganhando destaque pelo caráter político. Na abertura oficial do evento, o presidente Lula bem que tentou ressaltar a importância comercial do encontro, mas o seu tom moderado acabou atropelado pelo discurso do presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, cobrando apoio do bloco em formação para a questão palestina.
Apesar de a cúpula não ter produzido nenhum acordo comercial de impacto, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comemorou os primeiros resultados do encontro. Afirmou, após a assinatura de um acordo de cooperação entre o Mercosul e o Conselho de Cooperação do Golfo, que só esse documento já valeria a realização de uma cúpula com os países árabes, embora não do tamanho da que termina hoje.
O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, entretanto, conseguiu chamar atenção. No dia da abertura, roubou a cena ao antecipar seu retorno para a Argentina, na noite de ontem.
– O que tinha de acontecer já aconteceu hoje. Amanhã só vão acontecer efemérides – justificou o chanceler argentino, Rafael Bielsa.
A atitude repentina do colega argentino pegou o governo brasileiro de surpresa.
– Não sei por que ele foi embora, mas, provavelmente, tinha outros compromissos – disse o ministro da Fazenda, Antônio Palocci.
Oficialmente, o governo brasileiro tentou minimizar o episódio.
– Isso não tem importância nenhuma – disse Marco Aurélio Garcia, secretário especial da Presidência para Assuntos Internacionais.