Coisas do Brasil: O debate e o jogo que valem a pena

Mariana Carneiro

[12/NOV/2004]

Não adianta colocar a culpa no gol perdido do atacante ou no pênalti do zagueiro quando o esquema tático não funciona. A mesma lógica do futebol vale para a economia. Responsabilizar a alta TJLP, os impostos sobre o custo do dinheiro, ou mesmo os chamados juros setoriais pela falta de crédito é uma discussão que está fadada ao fracasso, quando o problema é tratar a política monetária como a única solução para os nossos problemas. E nos mostra que há algo de muito errado no acesso ao dinheiro do país.

O Estado continua sendo o grande absorvedor dos recursos. Em setembro, a dívida em títulos do governo subiu 1,25% em relação a agosto e atingiu R$ 771,3 bilhões. E com uma taxa de juros a 16,75% ao ano - pelo menos até agora - não é difícil supor que mais vale os bancos comprarem títulos do governo do que emprestar ao consumidor e às empresas. Afinal, para quê enfrentar o risco?

Não à toa os resultados dos bancos mostram lucros vistosos, como o registrado pelo Itaú, de R$ 2,7 bilhões até outubro. Só para comparar, o resultado da CSN saiu naquele mesmo dia. Apesar do aumento das vendas no país e do preço do aço lá fora, o lucro da siderúrgica não passou de R$ 1,45 bilhão. São os bancos brasileiros os grandes emprestadores de dinheiro ao governo, que para conter a inflação aumenta os juros e, conseqüentemente, os ganhos dos bancos. E o resultado está lá: a receita em títulos do Itaú, por exemplo, cresceu 40,24% em relação a 2003.

Amarrados à política monetária como se fosse nossa última salvação, criamos um círculo vicioso em que fazemos dos bancos e do chamado ''mercado'' mais felizes do que deveriam ser e reavivamos a cada mês a tensão inútil do pré-Copom. Já chegou a hora de pensar em alterar a tática, antes do fim do jogo.

No ano que vem, o governo Lula entra oficialmente no segundo tempo de seu mandato e aí terá que mostrar que temos craques além dos campos de futebol e que podemos vencer esse jogo - que ainda está empatado - do crescimento econômico.

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