Precocemente envelhecido pela mesmice, o governo Lula - de um ou dois mandatos, o que for - tem, entre as tarefas inadiáveis, recuperar o sentido original de mudança que pavimentou a pista e o conduziu ao Palácio do Planalto. Embora a efusiva retórica presidencial tente convencer o país de uma originalidade e de um ineditismo por ora inexistente no governo petista, Lula arrisca-se a deixar escapar grande parte da esperança de um ''Brasil feliz'' alimentado na campanha de 2002.
Muitos especialistas de boa vontade diriam que isto é bom: um realismo e uma normalidade capazes de frear fantasias utópicas prejudiciais à democracia. Duvide-se. O rei Leopoldo 2º, da Bélgica, referia-se ao seu país como ''uma nação pequena, com horizontes pequenos''. Difícil crer que esta seja a vocação do Brasil. A nação da desigualdade, da escassez e da precariedade material deverá se contentar com os limites inevitavelmente estreitos dos governos, quaisquer que sejam? Estará sempre no limiar, preste a despertar, enfim, do berço esplêndido?
Dizia Santo Agostinho que a esperança tem ''duas filhas lindas'': a indignação e a coragem - ''a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las''. Prima rica da esperança, a felicidade é uma conquista complexa. Tão difícil nos ideais públicos quanto nos desejos individuais. Tão próxima do fracasso em nações pobres quanto nos países ricos, como atestam pesquisas que cruzam o PIB com a felicidade. Se EUA e Europa ficaram mais ricos e, nem assim, sua população se sente mais feliz, o que dirá o Brasil, estacionado há mais de 20 anos por infortúnios ainda maiores de desemprego e desigualdade?
Felicidade não é um tema sobre o qual se deva chegar a conclusões muito afirmativas. Mas convém arriscar: não é algo que possa ser garantido aos homens por nenhum Estado ou partido, ao contrário do que julgava Saint-Just, em plena Revolução Francesa; cabe à política, porém, assegurar, sim, a procura da felicidade, criando condições de acesso a elementos da ventura, como saúde, liberdade, justiça, trabalho e segurança. O restante fica por conta da capacidade de cada um de ser feliz.