Um golpe na lavagem de dinheiro

Na maior devassa já realizada no mercado brasileiro de dólar, força-tarefa desmonta quadrilha acusada de movimentar US$ 20 bilhões

Hugo Marques e Marco Antônio Martins

[18/AGO/2004]

BRASÍLIA e RIO - Uma força-tarefa formada por integrantes da Polícia Federal, do Banco Central, da Receita e do Ministério Público Federal prendeu ontem 62 doleiros, donos de casas de câmbio e até um policial federal suspeitos de envolvimento num esquema de lavagem de dinheiro. Durante a operação Farol da Colina - tradução livre do nome da conta para onde eram enviados os dólares, a Beacon Hill - foram expedidos 208 mandados de busca e apreensão, em sete Estados, na maior devassa já realizada no mercado brasileiro de dólar. Calcula-se que o grupo tenha movimentado cerca de US$ 20 bilhões entre 1997 e 2002.

- Foi uma enorme operação, um trabalho importante que pode ter muitos desdobramentos de natureza fiscal - festejou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

A operação contou com a participação de 800 policiais, entre agentes e delegados, e as remessas incluem suspeitas de dinheiro lavado por narcotráfico, corrupção, contrabando e fraudes fiscais. As prisões e as buscas e apreensões foram autorizadas pelo juiz Sérgio Mauro, da 2ª Vara Federal Criminal de Curitiba. O magistrado tomou como referência documentos enviados pelo Departamento de Justiça americano, com base num tratado de cooperação entre Brasil e Estados Unidos, e por promotores do Estado de Nova York. Foram eles que iniciaram as investigações sobre as contas após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo o procurador da República, Vladimir Aras, chamou a atenção dos americanos o grande número de depósitos feitos por pessoas da região da Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai), local visto pelo governo americano como área de prática de terrorismo.

Além das prisões, a operação recolheu computadores, documentos, agendas e muito dinheiro, entre dólares, euros e reais. Até o início da noite, o dinheiro ainda estava sendo contado pelos investigadores. O objetivo da Polícia Federal é desvendar um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, envolvendo remessas ilegais pelo Banco Banestado. Com as prisões temporárias de cinco dias, a polícia vai tomar os depoimentos dos doleiros. Com as buscas e apreensões, pretende chegar a outros envolvidos com a lavagem de dinheiro.

- É importante nestas buscas localizar anotações, banco de dados, pessoas. Aí, passamos a saber quem são os clientes - afirmou o diretor-geral da PF, delegado Paulo Lacerda.

A operação começou às 6h de ontem e mobilizou agentes de quase todos os Estados brasileiros. No Rio, foram presos nove doleiros e empresários donos de casas de câmbio. As buscas e apreensões incluíram 56 casas de câmbio, escritórios e residências de doleiros, onde foi recolhida ''farta'' quantidade de documentos, computadores e dinheiro - cerca de US$ 140 mil e R$ 100 mil. Em São Paulo, a PF efetuou 22 prisões e realizou 79 buscas e apreensões. Um dos presos foi o doleiro Antônio Oliveira Claramunt, conhecido como Toninho Barcelona.

Em Belo Horizonte, foram quatro prisões. O principal alvo da PF em Minas foi a cidade de Governador Valadares, onde foram feitas 11 prisões e cumpridos 32 mandados de busca e apreensão. A cidade é a que mais envia cidadãos aos Estados Unidos e mais importa dólares. Foi lá que a PF identificou um policial federal que estaria envolvido com o esquema de lavagem de dinheiro.

Em Manaus foram três prisões e oito buscas e apreensões. Em Recife, a PF prendeu três doleiros e realizou inspeções em oito escritórios e residências. Em João Pessoa, foram duas prisões e sete mandados de busca. Em Belém, oito prisões e 18 buscas e apreensões. Até o início da noite de ontem, só metade dos 123 mandados de prisão havia sido cumprida.

Thomaz Bastos considerou a operação ''um grande êxito''. Ontem à noite, o ministro ficou de comunicar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o resultado final da operação. Bastos explicou que as investigações dos doleiros brasileiros passaram pelos Estados Unidos.

Pela conta da Beacon Hill Service Corporation, passaram várias remessas feitas, inicialmente, por intermédio do Banestado, conforme descoberto em quebra de sigilo solicitada pelo Departamento de Justiça Americano. Depois, elas passaram a ser feitas pelo banco JP Morgan, de Nova York. A Beacon Hill foi condenada nos Estados Unidos por intermediar remessas ilegais ao exterior. Alguns dos beneficiários eram brasileiros.

Com as prisões e as buscas, a Receita poderá identificar e multar empresários que sonegaram impostos com as operações e a PF poderá identificar quem lavou dinheiro do crime organizado. Um dos doleiros suspeitos de envolvimento no esquema, Sílvio Anspach, está nos EUA. O outro, Alberto Youssef, segundo a PF, está preso.

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