Em cerimônia no Palácio do Planalto, Waldemar Costa Neto diz que ministro não tem condições de tocar a economia do país
BRASÍLIA -
A posse do novo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, indicado pelo PL, e a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na solenidade não foram o bastante para amenizar a acidez das críticas proferidas pelo presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto (SP). Um dia após pedir, em entrevista ao
Jornal do Brasil, a cabeça do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, alegando que este não entende ''bulhufas'' de economia, Costa Neto repetiu que a manutenção da política econômica vai conduzir o Brasil ''direto para o buraco''.
- O ministro Palocci tem competência para ser prefeito de Ribeirão Preto, mas não tem condições de tocar a economia do Brasil e já provou isso durante um ano. Não entende de economia e levou o país para o pior dos mundos: crescimento negativo, com aumento de dívida - atacou o presidente do PL, partido que integra a base governista, com dois ministérios: Transportes (Nascimento) e Coordenação Política (Aldo Rebelo).
Na avaliação de Costa Neto, o presidente Lula conseguiu, após muito esforço, obter uma economia de R$ 70 bilhões (superávit primário), mas a dívida pública cresceu R$ 80 bilhões.
- Não dá para o país gastar R$ 150 bilhões e investir apenas R$ 4 bilhões. Não há quem resista a isso - disparou.
Os petardos de Costa Neto não se restringiram ao ministro Palocci. Como na véspera, atingiram também o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles:
- É um homem que não tem afinidade com o PT, com o governo e com a aliança dos partidos.
O discurso de posse de Alfredo Nascimento mostrou que os ataques não partem de opiniões pessoais de Costa Neto, mas formam uma estratégia partidária. Filiado ao PL, o ex-prefeito de Manaus defendeu ontem uma redução nas taxas de juros, assunto que começa a ser debatido hoje em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Os resultados serão divulgados amanhã.
- Com os juros que estão sendo praticados no país você tem problemas para produzir - reclamou.
O novo ministro, contudo, foi mais comedido que o presidente de sua legenda. Embora tenha criticado os juros, evitou dizer, após assumir o cargo, se concordava com a posição de Valdemar sobre o afastamento de Palocci e Meirelles.
- Eu não faria este comentário - afirmou, acrescentando, no entanto, que o próprio PT tem criticado a política econômica de Palocci.
Os ataques dos liberais acionaram a defesa antiaérea dos governistas. Ainda no Planalto, o vice-líder do governo na Câmara, Beto Albuquerque (PSB-RS), puxou Costa Neto para o canto e disse que ele deveria cancelar a indicação. Revoltado, afirmou que está surgindo uma nova Darlene no governo - em referência à personagem de Deborah Secco na novela Celebridade, uma jovem deslumbrada que faz tudo para aparecer.
- O que ele disse é uma irresponsabilidade. O Valdemar suava de felicidade aplaudindo o ministro dele. E não quer suar, não quer desgaste na hora de defender o governo? - esbravejou.
Para o vice-líder do governo, se Palocci não entende de economia, Costa Neto não entende de política. Albuquerque lembrou que a opinião do PL ou do PFL pouco importa para o governo.
- Quem dita os rumos da política econômica é o presidente Lula. E ele já disse o que quer - acrescentou, referindo-se ao apoio irrestrito de Lula ao ministro Palocci.
Os petistas também trataram de se defender. Líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP) garantiu que Palocci está fazendo um grande trabalho, que permitiu a retomada da confiança externa em relação ao Brasil:
- O caminho sólido e consistente está sendo possível graças ao trabalho de muita gente. E a atuação do Palocci vem sendo decisiva.
Mercadante também foi alvo das críticas de Costa Neto, que considera o líder do governo um nome natural para o Ministério da Fazenda.
- Só que ninguém gosta dele. Ele é um camarada difícil, honesto, mas não foi colocado no cargo justamente porque ninguém suporta ele - disse o presidente do PL.
O líder petista na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), também defendeu Palocci . Disse que 2003 foi um ano difícil e que o Brasil só não quebrou por conta da atuação firme. Admitiu que o PT, assim como o PL, defende a mudança nos rumos econômicos. Mas lembrou que isso não significa a troca do titular da Fazenda.
- Se o presidente Lula resolver que é necessário mudar a linha de atuação, Palocci vai ser ouvido e será o condutor desta nova fase - garantiu Chinaglia.
Diante da briga interna na base do governo, a oposição ficou entre a preocupação e o sarcasmo. O líder do PFL no Senado, José Agripino (RN), classificou o momento como preocupante. Recordou a nota da Executiva do PT - com críticas à política econômica -, os discursos de Costa Neto e a convenção do PMDB como sinais de divisão na base de sustentação ao Planalto.
- Estamos diante de uma fratura exposta na relação doméstica do Poder Executivo - apontou.
O líder do PFL na Câmara, José Carlos Aleluia (BA), sugeriu a Lula que repita, todo dia pela manhã, uma frase do padre-filósofo espanhol Baltasar Gracián, do século 17. O mantra serviria para o presidente se proteger dos aliados no governo:
- Oh, meu Deus. Cuide dos meus amigos, que dos meus inimigos, cuido eu.