Rio bom de choro
Uma nova geração de músicos está dando vigor ao mais carioca dos ritmos. E o melhor: eles tocam todos os dias da semana
LUCIANO RIBEIRO E BRUNO AGOSTINI
Eles são músicos de primeira linha, jovens e estudiosos. Ouvem um CD do Sepultura com o mesmo entusiasmo que apreciam uma sonata de Bach. O gênero preferido? O choro. Uma nova geração está dando um outro contorno a um estilo que muita gente já considerava desgastado. Com ela, o choro não só se livrou da pecha de ritmo de saudosistas, como ganhou injeção de entusiasmo dessa garotada, que arrasta toda noite um numeroso séquito de fãs, entre 18 e 35 anos, a noitadas de choro em vários cantos do Rio.
Diariamente, pode-se ouvir grupos como Abraçando o Jacaré, Tira Poeira, Arcos do Choro, Sacode o Evaristo e Rabo de Lagartixa em quiosques da Lagoa, bares de Santa Teresa, Copacabana, Lapa e Laranjeiras. Alguns, como o Quarteto Maogani e o violonista Yamandú Costa, já conseguem se apresentar em espaços maiores, como o Teatro Rival e a Sala Sidney Miller.
Um dos símbolos dessa nova onda de chorões é o gaúcho Yamandú Costa, virtuose de 22 anos. Saudado como o novo Raphael Rabello, ele começa ficar famoso fora do círculo restrito aos músicos do gênero. "Quando me mudei para o Rio, queria ficar perto de músicos maravilhosos. Pessoas que estavam criando novas harmonias para antigas canções. A diferença da nossa geração é que trouxemos ao choro outras influências, como o rock. Mas sem desrespeitar a tradição", diz o violonista. E a receita deu tão certo que o a nova geração do choro conquistou uma legião de admiradores que entram noite adentro, não importa o dia da semana.
Lapa, segunda-feira, 1h30 da manhã. Enquanto antigos redutos da boemia carioca - como a Praça Tiradentes e o Baixo Gávea - se despedem prematuramente de seus freqüentadores, os integrantes do grupo Abraçando o Jacaré, estão há mais de três horas tocando flautas e dedilhando bandolins no Semente. A prova do sucesso é a platéia, que não cabe no pequeno espaço do bar e se aperta na rua Joaquim Silva para acompanhar de perto o fenômeno. O Semente, por sinal, se tornou ponto de encontro de músicos e amantes do choro às segundas e quintas-feiras. Por volta de 22h30 é difícil conseguir uma mesa. Lá dentro, uma turma de adolescentes de classe média interessados no movimento, que conhecem os músicos pelo nome e esperam ansiosamente os primeiros álbuns dos conjuntos.
E são muitos. O Sururu na Roda, formado jovens entre 20 e 32 anos, costuma a se apresentar todas as quartas no Arab da Lagoa e aos sábados no Casarão Cultural, na Lapa. O grupo Arcos do Choro toca todos os sábados na festa Pessoas do Século Passado, na Casa Rosa, e uma vez por mês na Brazooka, que acontece às sextas na Casa da Matriz. Zé Paulo Becker, do Trio Madeira Brasil, só não faz chover com seu violão todas as quintas, no Semente. O onipresente Eduardo Gallotti está todas as terças no Severyna, em Laranjeiras, às quartas no Emporium 100, na Lapa. Neste fim de semana ele se apresenta sexta e domingo no Bar do Juarez, em Santa Teresa.
Há cerca de quatro anos, a cena era bem diferente. O violonista Zé Paulo Becker lembra que certa noite, quando foi se apresentar com o Trio Madeira Brasil no Semente, havia apenas uma pessoa na mesa. "Mesmo sem ânimo o grupo tocou", conta. "Hoje, é comum encontrar diversos músicos que vão ao Semente para dar canjas", diz. Canja, aliás, é palavra comum no vocabulário dos novos chorões. Existe uma grande interação entre os músicos.
Da tradição, eles herdaram o repertório e a generosidade de dividir experiências - Yamandú e Zé Paulo, os dois mais destacados violonistas do novo choro, chegaram a morar juntos por um ano. Assim como a velha guarda do choro, eles são estudiosos. A nova geração vem de escolas de música, como a da Uni-Rio e da UFRJ, que mostram assim um retorno prático de investimentos que muitas vezes não saltam aos olhos do público. Esses jovens conhecem a fundo a importância de Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos e Camerata Carioca, mas imprimem estilo próprio, improvisando como jazzistas sem perder a brasilidade.
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