Gravadoras em parceria

Kuarup, Acari Records e Biscoito Fino lançam raridades em conjunto

MONICA RAMALHO

Por ordem de chegada, a Kuarup está na frente. São 25 anos dedicados à música brasileira. Nessa levada, a gravadora, de Mário de Aratanha e Janine Houard, lançou alguns títulos pra lá de importantes à discografia do choro. A seqüência foi inaugurada em 1988, com o disco Noites Cariocas, gravado ao vivo no Teatro Municipal (vem aí a continuação, o Noites Cariocas 15 anos depois). Em seguida, mais de 40 títulos de choro engordaram o catálogo, incluindo a recente coleção Sempre, que traz um apanhado da obra de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo.

Este último, do cavaquinista Waldir Azevedo, autor do choro mais conhecido de todos os tempos, o Brasileirinho, está em vias de sair da fábrica. Deve chegar às lojas em junho próximo, com solos dos bandolins de Déo e Bruno Rian e acompanhamento dos cavaquinhos de Márcio Almeida e Henrique Cazes, por exemplo, além da participação especialíssima do violão absurdo e saudoso de Raphael Rabello. Também deve ser lançado em breve o disco Violão Pernambucano, com inéditas do grande (a começar pelo físico) Henrique Annes. "Em algumas faixas há o acompanhamento luxuoso de um regional", adianta Aratanha, um defensor do trabalho das pequenas gravadoras. "O mercado de choro não vai morrer porque é movido a muita paixão", sentencia.

A prova disso é a qualidade a que se propõem duas gravadoras nanicas: a Acari Records, que existe há quase três anos, e a Biscoito Fino, perto de completar dois. A Acari, de propriedade dos músicos Luciana Rabello e Mauricio Carrilho, tem o diferencial de gravar unicamente choro. No ano passado, eles criaram um selo, o Sambaqui, só para gravar samba. O selo já colocou na praça o elogiado álbum Todas as Canções, uma compilação da obra de Raphael, com letras de Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. Ao todo, o catálogo da Acari soma nove ótimas bolachas, mais os dois volumes dos Cadernos de Choro, um oásis tanto para iniciantes quanto para músicos profissionais que querem tocar as faixas dos discos.

Já a Biscoito Fino, dirigida artisticamente pela cantora Olívia Hime, mulher de Francis Hime, não se fixa em choro, mas contribui com a divulgação do gênero. Acaba de lançar o terceiro volume da série Compasso do Samba e Choro, gravados ao vivo no Paço Imperial. Na verdade, estes disquinhos são uma colcha de retalhos. Dos vários recitais, Olívia recolhe as melhores interpretações e encaixa nos discos. Um inegável sucesso de público e crítica. Gratuitos, os shows que originam os discos vivem lotados. "Nossos artistas estão fazendo trabalhos muito bons e têm nos procurado com muita confiança. Por outro lado, vejo a imprensa generosa com nossos lançamentos", avalia Olívia.

Parcerias - As três gravadoras em questão são quase irmãs. A Kuarup distribui os álbuns da Biscoito Fino que, por sua vez, está prestes a lançar em parceria com a Acari Records uma caixa com 15 discos dos primórdios do choro - um resgate de composições dos pioneiros no gênero, como os semi-desconhecidos Juca Kallut, Guilherme Cantalice e João Sampaio. "O trabalho partiu de uma pesquisa da Anna (Paes) e do Mauricio (Carrilho). Cerca de 95% das músicas são inéditas", diz Olívia, empresária e cantora nas horas nunca vagas. As últimas investidas são as bolachas Teu Nome, de Marcelo Vianna, neto do Pixinguinha, e O Samba é Minha Nobreza, um registro em estúdio do espetáculo que está em cartaz no Cine Odeon.

Mauricio e Luciana ainda investem na gravadora o que ganham nos shows e nos estúdios. Prometem para breve discos de dois veteranos: do sanfoneiro Zé de Elias, de 84 anos, e do bandolinista Tico-Tico, morto recentemente, em meio às gravações. Mais uma vez, a Acari prestigia a inventividade de músicos que estavam afastados de estúdios há tempos - como Índio do Cavaquinho e o Álvaro Carrilho - ou que nunca havia recebido o sinal verde para gravar um disco solo. É o caso do flautista Leonardo Miranda, um apaixonado pelas composições de Joaquim Callado. O bandolinista e violonista tenor Pedro Amorim lançou, também pela Acari, um disquinho fabuloso, com choros, valsas, polcas e um coco, praticamente ressuscitando um instrumento esquecido pelos chorões: o violão tenor.

23 de abril

A transição

A volta do choro nos anos 70

Da casa dos Carrilho

A garotada que vem por aí

Rio bom de choro

Roteiro dos chorões

Gravadoras em parceria

Para entender o choro

Os pioneiros

[18/ABR/2002]

   Home > musicalidade > especiais
Primeira Página