Da casa dos Carrilho

HELENA ARAGÃO
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Essa história começa num quintal, à sombra de uma caramboleira. Como em muitos lugares do subúrbio, as rodas de choro da família Carrilho na casa da Penha eram corriqueiras. Os anfitriões seu Álvaro (com a flauta na foto ao lado, numa roda em 1977) e "tia Zélia" recebiam desconhecidos e famosos para compartilhar aquela música instrumental que hipnotiza a tantos. Pipocavam cantoras, como Nara Leão e Elizeth Cardoso, mas ali as divas só entravam para ouvir. Afinal, na casa dos Carrilho solos, agudos e efeitos só podiam partir de flautas e clarinetes.

Se o espaço e o som eram divididos amigavelmente por poucos profissionais e ótimos amadores, hoje, décadas depois, também é a casa de seu Álvaro (agora em outro endereço, no bairro de Acari), que abriga o maior passo dado para que o choro tenha a atenção e o cuidado que merece. É no terraço dela que funciona o estúdio da Acari Records, iniciativa do filho Mauricio e da cavaquinista Luciana Rabello. Se há muito tempo a história da família Carrilho se entrelaça com a História do choro - tanto pelas rodas como pela trajetória de sucesso do flautista Altamiro, irmão de Álvaro, e mais tarde de Mauricio -, com a gravadora ela passa a ser capítulo fundamental.

"O choro começou a freqüentar o meu quintal porque o Altamiro costumava ensaiar com seu grupo lá", conta seu Álvaro. "Até que um dia apareceu na porta um vizinho nosso que era carteiro e tocava e flauta. O Altamiro o chamou para entrar, e então a coisa foi ganhando mais essa cara de roda". Quando casou e se mudou para a Penha, seu Álvaro viu o hábito tomar dimensões ainda maiores. De residência, a casa se tornou praticamente um centro comunitário.

De um lado, o Jardim Escola Xadrezinho, comandado por dona Zélia, alfabetizava crianças e promovia festas infantis. Do outro, as rodas que reuniam cada vez mais gente - começavam de manhã, para as crianças, seguiam até à noite e muitas vezes emendavam mais um dia, seguindo para outro quintal ou para o Suvaco de Cobra, bar que também ajudou a manter a chama do choro acesa. "O Suvaco na verdade era o ponto de encontro de um pessoal que ia pescar nos fins de semana, não tinha essa tradição musical no começo", lembra Mauricio. "Mas como muitos dessa turma eram músicos, começou a aparecer um pessoal para vê-los tocar. Era uma roda sem amplificação com quantos instrumentos fossem, tinha dia de ficarem 50 pessoas tocando ao mesmo tempo".

Na casa da Penha, Radamés Gnattali era um dos maiores entusiastas da farra. "Ele achava aquilo de uma importância fundamental para a manutenção do choro. Levava várias pessoas, como o maestro Gaia e o Chiquinho do Acordeon", lembra Álvaro. Ele e Zélia se divertem ao lembrar que, de tanto sucesso, a roda em sua casa virou pauta para um programa da TVE. "Sinto muita falta da casa da Penha, teve de tudo lá: escola, catequese, primeira comunhão, seresteiros e chorões, tudo misturado", lembra dona Zélia, que saiu do bairro para um apartamento em Olaria, não se adaptou e agora se diz contente com Acari.

Rapidamente as rodas passaram a ser freqüentadas por jovens ávidos por aprender a solar e acompanhar choro como os veteranos. "Na época a roda de choro era o único espaço onde se exercitava essa atividade. Os quintais foram fundamentais para a manutenção do gênero", explica o arquiteto Alfredo Brito, que hoje em dia é o anfitrião de uma das rodas mais festejadas do Rio, em Santa Teresa. Para Mauricio, a década de 70 viu uma efervescência do choro parecida com a que se vê agora. "O choro estava esquecido desde a Bossa Nova e foi retomado por aquela geração. Essas explosões costumam acontecer mais ou menos de vinte em vinte anos e são fundamentais para a passagem para os mais jovens", observa ele.

Bem sabe disso a turma formada por Joel Nascimento, Pedro Amorim, Celsinho Silva, Raphael e Luciana Rabello, que hoje se destaca por divulgar o choro e colocá-lo talvez no seu momento mais fértil. Foi dessa geração que começaram a pipocar os grupos dedicados ao gênero - como Os Carioquinhas, formado por Mauricio, Luciana, Raphael e Celso, e a Camerata Carioca, que teve Radamés como mentor e era formada pelo mesmo time dos Carioquinhas, mais o bandolinista Joel e o violonista João Pedro Borges (recentemente, o disco Tocar, da Camerata, foi reeditado em CD).

Ensino do Choro - Hoje, boa parte deles se dedica também a passar para a garotada as intrincadas harmonias e improvisos - sempre nas rodas, é claro, e ultimamente também na oficina de choro dada todo sábado na Escola de Música da UFRJ. "Dessa novíssima geração está saindo uma safra espetacular", garante seu Álvaro, que dá aulas de sopro na oficina. Ele tem razão. Nos cada vez mais numerosos bares que contam com o choro na sua programação de música ao vivo, grupos formados por músicos jovens imperam.

A nova geração está fazendo um choro diferente, com outras influências, até mesmo do rock. Mas se chegamos a isso foi graças à escola das rodas, onde tocamos com os veteranos e aprendemos a estrutura tradicional", afirma o violonista Caio Márcio, que vê em Mauricio um exemplo de profissional. "Ele acompanha os solistas de uma maneira muito marcante, tem uma ousadia harmônica e um bom gosto difícil de se ver por aí. É choro puro com muita sofisticação". Como se vê, a troca de figurinhas entre as gerações é, sem dúvida, uma das marcas registradas do choro e o que fundamenta sua manutenção. E se antes esse contato era feito só nas rodas, hoje já encontra espaço nas casas de show, festival e, finalmente, nas pequenas gravadoras.

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