A volta do choro nos anos 70

MONICA RAMALHO

A sonoridade única de um solo de cavaquinho ou de violão de sete cordas - inventado por Tute, divulgado por Dino e mais tarde aperfeiçoado por Raphael - andou esquecida entre 1950, quando a juventude da zona sul carioca fabricou a bossa nova, e o início dos anos 70, quando esses instrumentos voltaram à cena através dos Novos Baianos. "Um marco desse período foi o primeiro disco de Cartola, produzido por J.C.Botezzelli, o Pelão, para a gravadora Marcus Pereira", registra Henrique Cazes no livro Choro: do quintal ao municipal, publicado pela editora 34.

Este LP (long plays tem mais charme do que CDs, concorda?) revelou a potência de um regional a uma geração inteira. Os arranjos eram de Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas, grande divulgador de um elemento fraseológico conhecido como "baixaria". Dino havia tocado nos regionais de Dante Santoro e de Benedito Lacerda (que, em certa altura, passou a se chamar regional do Canhoto). Além do cavaquinista Canhoto e do violonista Meira, "o álbum ainda tem uma cozinha impecável liderada por Marçal, Luna e Gilberto D’Ávila. Nos sopros Copinha, Raul de Barros e Abel Ferreira, tudo isso num repertório genial", escreve Cazes.

Uma andorinha não faz verão, mas quando muitas voam juntas é sinal de que a nova estação está chegando. E foi mais ou menos isso que aconteceu no cenário musical naquela década. Em 1973, Paulinho da Viola, no auge da carreira, e o jornalista Sérgio Cabral reativaram o conjunto Época de Ouro, que estava longe dos palcos desde a morte do fundador Jacob do Bandolim, em 1969, num espetáculo memorável: o Show Sarau, com participação especial do grande flautista Copinha.

O espetáculo incentivou a formação, nos anos seguintes, de alguns conjuntos de choro, como A Fina Flor do Samba, em 1975, uma mistura de choro e samba que acompanhava a cantora Beth Carvalho e o Galo Preto (ainda na ativa, eles acabaram de gravar O Dono das Calçadas, com obras de Nelson Cavaquinho, ao lado da cantora Soraya Ravenle e do sambista Nelson Sargento) e o inesquecível Os Carioquinhas, do qual fazia parte a maior promessa do violão brasileiro: Raphael Rabello, então um menino de 13 anos. Foi o suficiente: o gênero não saiu mais de cartaz.

Vinte e sete anos se passaram entre o primeiro Show Sarau, que marcou a volta do choro às vitrolas brasileiras, e o reencontro dos craques que estavam lá, no Teatro Casa Grande, naquele recital de 73. Em outubro de 2001, mais precisamente no dia 16, Paulinho da Viola, Época de Ouro e Sérgio Cabral, reeditaram, no Sesc Copacabana, o concerto que reacendeu o interesse de público, da imprensa e dos próprios músicos pelo gênero carioca. Na versão contemporânea o pretexto era homenagear o violonista César Faria, 82 anos, num contexto favorável ao choro e aos novos chorões.

23 de abril

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[18/ABR/2002]

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