A garotada que vem por aí

MONICA RAMALHO

Ana Rabello, 16 anos. Caio Marcio, 20 anos. Bruno Rian, idem. Um palpite sobre o que essa garotada de sobrenome ilustre têm em comum? Vamos lá. Eles são vistos chegando nos bares com estojos em forma de cavaquinho, bandolim e violão. Isso mesmo. Estamos falando da nova geração de chorões. Ana Rabello é filha de dois nobres operários da música brasileira: a cavaquinista Luciana Rabello e o compositor Paulo César Pinheiro. Nas veias também circula o sangue do violonista Raphael Rabello e da cantora Amélia Rabello, irmãos de Luciana.

"Sempre escutei e sempre adorei choro", afirma Ana. Na música começou estudando piano, aos 8 anos. E de tanto assistir às rodas de choro que aconteciam ali, no quintal de casa, veio a vontade de participar. Aos 11 anos, largou o piano e segurou o pandeiro "porque queria tocar com eles". Eles, no caso, são músicos como Paulinho da Viola, Cristóvão Bastos e Pedro Amorim. Do pandeiro extraiu alguns sons interessantes, mas ainda faltava alguma coisa. "Percebi que não era aquele instrumento que eu queria quando fiz a oficina da Funarte, há um ano e meio. Entrei tocando pandeiro e sai tocando cavaquinho", diverte-se.

Faz cerca de um mês que Aninha encarou o estúdio pela primeira vez. Gravou a polca "Salomé", do flautista Joaquim Callado, ao lado de músicos da competência de Altamiro e Mauricio Carrilho. O registro terá dois destinos certos: entrará no disco que o Banco do Brasil distribuirá aos funcionários no próximo Natal e na também na caixa de cinco álbuns que a Acari Records (gravadora de choro que Luciana e Mauricio abriram em sociedade) está produzindo com a obra completa de Callado, ainda sem previsão de lançamento.

Ana não foi a única que arriscou os acordes iniciais no piano. Caio Marcio, filho da pianista Fernanda Chaves Canaud com o clarinetista Paulo Sérgio Santos, chegou a tomar lições com a mãe antes de escolher o violão. Dos 14 aos 18 anos estudou o instrumento com o legendário Hélio Delmiro, da banda de Elis Regina e outros nomes sagrados da Música Popular Brasileira. Aprendeu toda a cartilha jazzística de Delmiro até cruzar com o choro, recentemente. No ano passado, gravou com o pai e o percussionista Oscar Bolão, pela Kuarup, o elogiado disco Gargalhada, eleito um dos melhores do gênero no período.

"Na verdade, eu tenho vontade de descobrir outros caminhos musicais", avisa o violonista, aluno do Conservatório de Música. É essa a proposta do conjunto instrumental do qual participa, o Tira Poeira. Os meninos trabalham outras sonoridades, como o baião, o maracatu, o jazz e até o funk, sobre um repertório de choro. Os puristas torcem o nariz, mas a rapaziada do conjunto não se abala. "Estamos abertos a outras influências. Não somos tradicionais, mas acreditamos na escola do choro, que é muito rica e bem brasileira", diz Caio.

O bandolinista Bruno Rian é filho de Déo Rian, que sucedeu o gênio Jacob do Bandolim no conjunto Época de Ouro, nos anos 70. Bruno integra o time dos chorões tradicionais. No seu aparelho de som, ainda rolam aqueles álbuns antigos, como o disco Inéditos de Jacob, que traz um Raphael Rabello bem novinho no violão de sete cordas e Déo solando no bandolim. Dos lançamentos recentes, Bruno destaca Mulheres do Choro, da Acari. "Além da qualidade musical, o disco consolida a relevância da mulher na história do choro", avalia.

Era um moleque de 10 anos quando estreou no bandolim. Pandeiro ele toca desde os três anos. "As pessoas não acreditam quando conto isso, mas minha mãe tem vídeos que comprovam". Em 1996, gravou o disco Choro em Família com o pai e, em 1999, lançou o álbum Cordas Novas com o Grupo Sarau - aquele que toca aos domingos na Cobal do Humaitá. "No primeiro, registramos composições de chorões desconhecidos, que meu pai conhecia das rodas de Jacarepaguá, como Buliçoso, do clarinetista Juvenal Peixoto. E o Cordas Novas teve a felicidade de ser considerado um dos melhores discos instrumentais daquele ano".

Ele conta, ainda, como veio a paixão pelo instrumento. "Aprendi bandolim por iniciativa própria. Um dia, aos 8 anos, quando voltei de um show do papai no João Caetano, peguei um cavaquinho afinado em bandolim e tirei o samba Na baixa do sapateiro, do Ari Barroso. Daí em diante, não parei mais. Do cavaquinho fui para o bandolim e minha maior escola foram os discos do Jacob, do Joel Nascimento e do meu pai", relembra Bruno Rian, que ano passado tocou para um teatro lotado, fazendo os solos de bandolim com os mestres do conjunto Época de Ouro.

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