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O Pearl Jam não vai esquecer o Rio


RIO - Êxtase. Assim pode ser definido, em apenas uma palavra, o show do Pearl Jam no Rio de Janeiro. E, se a Cidade Maravilhosa não vai esquecer a noite do último domingo, o quinteto de Seattle também vai ficar com as vozes dos cariocas na cabeça por um bom tempo.

Assim que os portões foram abertos, por volta das 15h, teve início uma correria para garantir um lugar na boca do gol, na cara do palco. Salvo os barrados com ingressos falsos, a festa teria sido completa. E a Apoteose foi enchendo, enchendo, até que o Mudhoney subiu ao palco, pontualmente, às 19h30. Sem empolgar, a banda foi tocando e aumentando a ansiedade dos fãs. Ao final do show, os conterrâneos de Vedder e Cia. pareciam tão emocionados quanto o mar de gente que se estendia a sua frente.

E a espera levou os fãs à loucura. Enquanto uma hipnótica base de baixo se repetia nos auto-falantes, a platéia não aguentava mais esperar. Eis que, por volta das 20h50, surge a turma de Seattle, enfurecida, incendiando o público com as pauleiras Last Exit, Do The Evolution, e Animal. Foi assim que o sonho começou, com 20 minutos de atraso.

Com seu jeito simples, o vocalista Eddie Vedder cativou o público, que, quando não cantava a plenos pulmões, olhava, em transe. Corduroy, Dissident, Even Flow, Leatherman... O desfile de clássicos parecia não ter fim, assim como o fôlego da platéia. Em Given To Fly, um daqueles momentos inesquecíveis, com 45 mil pessoas cantando junto - inclusive os grunhidos de um Vedder já desconcertado pela intimidade dos fãs com a banda.

Em seguida, mais delírio: quando começam os primeiros acordes de Daughter, o Pearl Jam estava na mão do público. Para quebrar um pouco, o guitarrista Stone Gossard sobe ao palco e canta Don't Gimme No Lip e dá uma esfriada, preparando terreno para a próxima música. A balada acústica Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town teve celulares e isqueiros acesos, deixando a banda boquiaberta, para em seguida emendar mais pauleiras (Down, Once, Go).

Pausa e Vedder volta, sozinho, com uma pequena viola havaiana. Nos primeiros acordes, o vocalista parece nocauteado e erra a balada Soon Forget. Sem problemas, pois o público acha graça, aplaude e ele recomeça, emocionando os espectadores, que assistem atônitos. Em seguida, o momento mais fantástico do show: a platéia cantando Betterman - que o próprio Vedder confessa ser uma de suas músicas favoritas. O vocalista se afasta e, mesmo quando tenta cantar, tem sua voz abafada pelo público.

Em momento cover, o Pearl Jam homenageia os Ramones, com I Believe In Miracles, e o MC5, com Kick Out The Jams. De volta ao planeta Terra, o clássico Alive. Mais êxtase, mais show da platéia. No segundo bis, Vedder pede e a platéia canta junto, sem parar, Last Kiss, Black, Jeremy. Precisava mais? Sim! E tinha. Yellow Ledbetter era para ter fechado o show. Mas, como ninguém foi embora, mesmo com as luzes já acesas, a banda pergunta: vocês querem mais uma? Sim? Então ok. E sobe Baba O'Riley, do The Who, para nocautear a platéia.

Mas, o que explica a simbiose entre o Pearl Jam e o público? O que explica que, mesmo brigando com a indústria, o quinteto de Seattle seja tão longevo e unido? Como os fãs, de todas as tribos, se reúnem num culto quase que messiânico ao que sobrou do grunge? Coisas que só a paixão explica. Paixão essa que fez com que o Pearl Jam, certa vez, abdicasse de ser a estrela para atuar como banda de apoio do ídolo Neil Young, no disco Mirrorball.

No domingo à noite, o sonho era apenas um pontinho luminoso em cima de um palco, a metros de distância. Para outros, mais afortunados, o sonho estava ali, a um palmo de distância. Mas todos têm a certeza de que participaram de um momento único: o dia que o Pearl Jam - uma das maiores bandas do mundo, que abdica da parafernália e da pirotecnia, se preocupa com os fãs e que vive às turras com a indústria fonográfica - foi nocauteado por uma platéia em transe. Definitivamente, o Pearl Jam não vai esquecer o Rio.

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[05/DEZ/2005]


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