GENEBRA -
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, destacou que existem várias brechas digitais no mundo, ao abrir hoje, em Genebra, a Cúpula da Sociedade da Informação, estabelecida com o objetivo de encurtar a crescente distância no acesso às tecnologias da informação entre países ricos e em desenvolvimento.
A reunião - da qual participam vários chefes de Estado, sobretudo africanos, e na qual brilham por sua ausência os ocidentais, que delegaram seus ministros - adotará uma declaração e um plano de ação para conectar aldeias, escolas, universidades, hospitais, centros científicos e culturais e administrações às novas tecnologias de hoje até 2015.
Em seu discurso, Annan explicou que "existe em primeiro lugar a brecha tecnológica, além de uma brecha de conteúdos, já que boa parte da informação que se encontra na rede não é relevante para as necessidades reais de muitas pessoas".
"Quase 70% dos portais de internet estão em inglês, com o que ficam excluídos pontos de vista e vozes locais", denunciou o secretário-Geral.
Kofi Annan disse ainda que existe uma grande desigualdade entre os sexos, a favor dos homens, no acesso à tecnologia da informação, fenômeno, disse ele, que se dá tanto nos países ricos como nos pobres.
O secretário-geral também se referiu a uma brecha comercial e explicou que o comércio eletrônico está estreitando a cooperação entre países e sociedades, mas lembrou que há "outros correm o risco de uma maior marginação".
Após frisar todas essas brechas, o secretário-geral da ONU disse que elas não desaparecerão automaticamente e que chegaremos a uma "sociedade da informação aberta" e benéfica para todos sem um forte compromisso político e investimentos que o acompanhem.
Dirigindo-se aos empresários do setor das tecnologias da informação, Annan disse que o futuro dessa indústria já não está tanto no mundo desenvolvido, onde os mercados estão saturados, mas na capacidade de se alcançar milhões de pessoas do mundo em desenvolvimento que ainda não tiveram contato com a revolução da informação.
Para Annan, é além disso essencial que os meios de informação conservem suas liberdades, refletidas no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. "O direito à liberdade de opinião e informação é fundamental para o desenvolvimento, a democracia e a paz".
A defesa dos direitos humanos e as liberdades de opinião e de expressão também centraram o discurso do presidente do país anfitrião, o suíço Pascal Couchepin, que disse esse que esse é um dos requisitos fundamentais para se chegar à Sociedade da Informação.
"O acesso à liberdade de informação está no próprio coração do desenvolvimento", afirmou Couchepin ante chefes de Estados acusados por diversas organizações não-governamentais (ONGs) presentes na cúpula de não respeitar tais liberdades.
Um dos dirigentes criticados por essas ONGs, entre elas a Repórteres sem Fronteiras, é justamente o presidente Ben Ali, da Tunísia, país que presidirá dentro de três anos a segunda parte desta cúpula.
Ben Ali não respondeu a nenhuma das críticas lançadas insistentemente por diversas ONGs e por Genebra a respeito da falta de liberdades em seu país, limitando-se em seu discurso a destacar que a brecha digital "é um obstáculo ao diálogo das civilizações".
O presidente da Tunísia defendeu a celebração em seu país da segunda etapa da cúpula, argumentando que a Tunísia efetuou "reformas sociais" e investiu em infra-estruturas de telecomunicações, consciente de que este setor é o "alicerce da sociedade do saber" do futuro.
O secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações, UIT, Utsumi Yoshio, destacou a expansão "sem precedentes" das tecnologias da comunicação nos últimos quatro anos, nos quais se passou de 1,5 bilhão para 2,5 bilhões o número de linhas telefônicas, 75% das quais foram instaladas em países em desenvolvimento.