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Criador da web se diz contra controle dos EUA sobre a internet


Xavier Barros

Agência EFE

GENEBRA - O criador da World Wide Web (WWW), o inglês Tim Berners Lee, que participa hoje da abertura da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, disse que o registro de nomes de domínio na internet não deveria depender unicamente dos Estados Unidos.

Em entrevista à EFE, Berners Lee disse que a Corporação de Internet para o Registro de Nomes e Números de domínio na internet (Icann, na sigal em inglês), uma organização privada com sede na Califórnia (EUA), não deveria ser controlada só pelos EUA.

Berners Lee e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, enviaram hoje um e-mail a todas as escolas conectadas à internet como parte dos atos prévios à abertura da cúpula, nesta tarde. "A Icann deveria estar mais vinculada às organizações das Nações Unidas", disse Berners Lee, que, no entanto, reconheceu o grande trabalho dos EUA no desenvolvimento da grande rede.

Nesse sentido, o criador da WWW, que recebeu no ano passado o prêmio Príncipe de Astúrias na área de Pesquisa Científica e Tecnológica, destacou que os EUA assumiram a internet e agora dificilmente poderiam abandoná-la. Berners Lee destacou que o trabalho da Icann se limita, até o momento, a registrar e administrar o sistema de nomes de domínio de internet. Ele ressaltou ainda que, como órgão, a entidade já experimentou modificações em conseqüência dos vínculos com a Administração dos EUA e das tentativas de extorsão por parte de algumas empresas privadas.

Berners Lee, que trabalha em diversos projetos na sede de Genebra do Laboratório Europeu para a Física de Partículas (Cern), onde há mais de uma década elaborou o sistema de interconexão descentralizada cuja popularização contribuiu para o desenvolvimento da internet, conjuga seu trabalho de pesquisa com o de conferencista sobre novas tecnologias em diversos países.

O físico, de 55 anos, ressaltou que a internet enfrenta agora novos desafios, entre os quais destacou a regulamentação dos direitos de propriedade intelectual e os problemas de vírus e spams (e-mails indesejados). Porém, ressaltou com um otimismo de eterno estudante que "tudo tem jeito".

Berners Lee se mostrou a favor de que a rede desfrute de ampla liberdade de opinião e expressão, ao ressaltar que, de maneira geral, a censura governamental não é uma boa idéia e que as tentativas das autoridades de implementar mecanismos para combater a pornografia podem ser percebidas como censura. O criador da web destacou a existência de meios tecnológicos capazes de fazer frente a esses desafios, mas que requerem um esforço da comunidade científica e o apoio dos poderes públicos.

Com relação à desigualdade digital entre os países industrializados, onde a população tem acesso à internet, linhas telefônicas de alta velocidade e telefones celulares, e os países pobres, onde muita gente não tem sequer acesso à eletricidade ou ao telefone, Berners Lee considerou que a comunidade internacional deve fazer maiores esforços em diversos âmbitos.

"Acho que é importante buscar vias para financiar o desenvolvimento nos países pobres, mas acho que a internet não seria a primeira na lista de necessidades, mas talvez a saúde". Por último, o físico britânico defendeu a preservação das culturas minoritárias na internet e se disse "contra uma monocultura dominante, uma vez que precisamos de diversidade de pensamento no mundo para enfrentar os novos desafios".

"Não quero criar nenhum tipo de prognóstico, mas eu gostaria que a população falasse pelo menos duas línguas", disse Berners Lee, afirmando que uma delas deveria ser um idioma global para que todos entendessem.


[10/DEZ/2003]


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