BRASÍLIA -
Escolas de primeiro e segundo graus e universidades brasileiras vivem um dilema. A mesma internet que abre as portas do mundo da informação aos alunos também oferece trabalhos escolares bem escritos e prontos para clonar.
Não há números para dimensionar o problema, o que dificulta o controle de professores e reitores. Ninguém se deteve para estudar a quantidade de alunos que copia, cola e imprime trabalhos prontos da rede. Sabe-se apenas que a artimanha torna-se cada vez mais comum.
Os sites de pesquisas escolares estão entre os mais acessados pelos 15 milhões de brasileiros internautas. A nota 10, sonho de todo estudante, está ao alcance das teclas e do mouse, ainda que à custa de plágio, cópia e até compra de resumos de livros e monografias.
O uso academicamente incorreto da web preocupa o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. ''É um problema'', concorda. ''Os estudantes precisam ter maturidade para usar a internet.''
Convite - Como não há dados sobre o plágio virtual de trabalhos escolares, quem tenta entender o fenômeno recorre à experiência própria. Em artigo publicado no início do ano, o sociólogo e professor José Pastore adverte que a internet ''tornou-se um convite à desonestidade''.
Em ''A cola nas escolas'' - www.josepastore.com.br -, Pastore admite que é difícil distinguir os espertalhões dos gênios. Confessa que, apesar de ''vigilante'', pode ter sido enganado várias vezes. Entre os colegas, revela, a sensação de ''pânico'' diante da incapacidade de detectar a fraude é constante.
Mas a internet não deve ser transformada em vilã, alerta a orientadora Vera Lúcia Camelo Neri, do Colégio do Ceub, em Brasília. ''É uma grande fonte de informações, armazenando mais dados que qualquer biblioteca - ainda que, muitas vezes, a fonte não seja confiável'', diz.
A orientadora acabou desenhando uma espécie de manual de alerta contra fraude internáutica. Aconselha os mestres a, além de avaliar o conteúdo dos deveres, prestar atenção à forma como o aluno conclui o trabalho, demonstrando sua interpretação do tema. ''O professor sério conhece seus alunos, sabe do que cada um é capaz de fazer'', diz Vera Lúcia.
Preços - Há endereços virtuais especializados em comercializar tarefas escolares para todos os gostos. Marília, 25, só estudou até o segundo grau, mas vive livrando universitários de apuros com seu site de venda de trabalhos e monografias. Recebe, em média, 20 pedidos por semana. Cobra de acordo com a extensão da pesquisa e a complexidade do assunto. ''As monografias me tiram do sério, porque são grandes demais'', reclama Marília.
O trabalho urgente custa R$ 30. Pode ser impresso pelo cliente em casa até uma hora depois da confirmação do depósito. O número da conta e da agência bancária estão no site. ''No fundo, todos querem mesmo é passar de ano'', diz a redatora virtual.
Na estante do quarto, Marília organiza por assunto dezenas de CDs com mais de 25 mil endereços de sites, de mitologia grega a engenharia mecânica. Para atualizar o banco de dados e redigir, trabalha de madrugada. Habituou-se a ficar conectada sempre de meia-noite às 6h. Marília atende do adolescente relapso ao formando desesperado. ''O que me leva a comprar ou copiar um trabalho é a falta de tempo'', alega Rogério, 23, estudante de Letras.