Um casal de adultos está em frente a um computador tentando usá-lo, mas nada acontece. O desespero aumenta e resolvem chamar alguém que entenda do assunto. Ambos gritam em coro: ''- Rudi!''. Frustrando todas as expectativas, em vez de um técnico, aparece o filho do casal, um garotinho com cerca de 6 anos. Ele aperta uma tecla e tudo passa a funcionar normalmente.
A cena do comercial representa um fato conhecido do cotidiano de quem convive com crianças. Elas têm uma enorme facilidade para lidar com a complicada tecnologia, ao contrário da maioria dos adultos. A instrumentadora Dulcinéa Nascimento que o diga. Não sabe nem ligar o computador do filho Thiago, de 9 anos. Ele, em compensação, em alguns dias e sem professor, aprendeu a acessar à internet, instalar seus próprios jogos e mandar e receber e-mails. ''É ele quem pega receitas para mim na internet. Eu tenho medo de mexer em alguma coisa e estragar tudo'', diz ela.
Segundo a professora de educação infantil da Universidade Federal do Espírito Santo, Vânia Araújo, é exatamente por isso que Thiago e outros baixinhos dão um banho nos mais velhos. ''Enquanto os adultos pensam 10 vezes antes de qualquer ação, as crianças não têm medo de ousar e experimentar, testando tudo na prática''.
Ela compara o aprendizado em informática com andar de bicicleta. ''O adulto mede o risco que corre de cair e se machucar, tendo muito mais dificuldade para se equilibrar. Já uma criança, sobe em cima e sai andando, sem o menor pudor''. O medo de causar algum dano à máquina ou passar vergonha perguntando besteiras é a maior barreira para o aprendizado tecnológico.
A capacidade de observação também é grande responsável pela desenvoltura infantil com as máquinas. A atriz Vanessa Afonso desenhava um envelope no seu computador, enquanto seu primo Rodolfo, de 5 anos, olhava tudo, sentado ao seu lado. Ela levantou por alguns minutos, deixando o menino brincando no Paint, programa de desenho do Windows. Ao voltar, levou um susto: ele havia desenhado um envelope idêntico ao dela, e no lugar do remetente, colocado o seu nome, a única palavra que sabe escrever.
''O mais incrível é que ele nunca havia mexido com computador, a não ser para jogar'', disse. Rodolfo também aprendeu Chessmaster - jogo de xadrez -, apenas observando o irmão mais velho. Porém, ironicamente, apesar de ganhar várias partidas da máquina, não soube nem identificar as peças quando tentou um tabuleiro real.
A criança possui uma combinação de humildade para perguntar e ousadia para testar, o que as colocam à frente de qualquer marmanjo, quando surge um novo desafio. ''Segundo Jean Piaget (psicólogo e estudioso de inteligência infantil) www.piaget.org, elas têm prazer até com tarefas repetidas, como encher um balde com areia e esvaziá-lo dezenas de vezes'', diz Vânia.
No computador, quando algo não dá certo, tentam de novo até conseguirem fazer funcionar, o que a maioria dos adultos não faria. ''Uma criança raramente lê um manual. Se ela não tem para quem perguntar, sai testando''. Para que fique craque em informática, é preciso deixá-la mexer livremente, sem colocar medos ou barreiras, pois é experimentando que se aprende.