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''Criatividade exige renovação''

ENTREVISTA - Joãosinho Trinta


Sábado, 3 de Março de 2001


Cláudia Amorim, Lena Frias e Marcus Barros Pinto


Felipe Varanda
Ainda impregnado pela filosofia do profeta Gentileza, tema do enredo da Grande Rio no carnaval deste ano, João Clemente Jorge Trinta, ou Joãosinho Trinta se apresenta como ''um operário trabalhando com matérias várias, principalmente com o espírito, de onde tudo vem''. Soa tranqüilo mesmo depois de ter sido ''incompreendido'' ao pôr um homem voando sobre o sambódromo. Mais uma ousadia, sua marca em 27 anos como autor de enredos e de transformações no carnaval. Foi o primeiro crítico do sambódromo, mas um dos pioneiros ao dar mais força às fantasias e aos carros para aproximar o desfile das arquibancadas altas. Foi o pioneiro em expor corpos femininos e masculinos, mas vê no abuso ''a exploração, como marketing, da culpa imposta pela educação ocidental''.

Sossegado, apesar de mais uma derrota - que supera perguntando: ''Quem ganhou o carnaval no ano em que desfilei com Ratos e urubus, larguem minha fantasia?'' - continua provocativo. Quer iluminação teatral no desfile, mais arquibancadas no sambódromo, novo critério para escolha dos jurados do desfile e um novo regulamento. Sua conversa flui como o desfile de suas escolas: ora faz sentido imediato, ora só pode ser compreendida se vistas todas as alas ou lidas todas as respostas. Esconde o que planeja para 2002, mas revela planos de cultivar, em aterros de lixo abandonados em Gramacho, em Duque de Caxias, flores para exportação. Um trabalho social e Uma idéia que, não nega, ''pode dar samba''.

- Para onde o carnaval vai ou deve ir?

- Acredito que o desfile das escolas de samba tomará uma nova dimensão no momento em que acontecer aquilo em que insisto há 25 anos: que se use a luz teatral. O desfile das escolas de samba é uma obra que conta uma história. Na ópera, um dos elementos principais é a luz. Por quê o espetáculo em Parintins parece tão grandioso? Por quê a abertura dos jogos Olímpicos é magnífico? Porque há o trabalho da luz dramática.

- Quando se faz um espetáculo num palco, arena ou estádio, é fácil produzir esta luz. Como seria no sambódromo?

- Isso já foi testado há alguns anos pelo Peter Gasper com uma ala da Caprichosos de Pilares. Por computador, a luz segue a escola.

- O senhor acha que é o momento de uma revisão no regulamento dos desfiles?

- No mínimo uma revisão no critério de escolha dos juízes. E se evitar que o patrono de uma escola seja o presidente da Liga e responsável pela escolha dos juízes. E o horário. Não é possível, por imposição da TV, se começar às 21h e terminar de dia.

- O desfile das escolas do grupo especial tornou-se apenas um espetáculo?

- Para mim, cultura pode ser espetáculo. Tenho trabalhado no carnaval para desenvolver uma cultura popular. O carnaval tem uma linguagem própria, completamente diferente de cinema, de teatro.

- Há quem desfile disputando o título, pensando no júri. O senhor desfila pensando em...

- ... É claro que cada quesito tem que ser bem tratado porque tem um julgamento, não se pode descuidar. Mas penso no todo, no espetáculo, não só no júri.

- O senhor, ainda que ouse, guarda tradições, como o cuidado de resguardar mestre-sala e porta-bandeira no desfile?

- Botei uma moldura para que ninguém passasse, para que não houvesse interferência nenhuma, para que as atenções ficassem sobre a bandeira. Não faz sentido pôr esta dupla dividindo atenções com a madrinha da bateria, como em outras escolas.

- Além da luz, o que mais mudaria no Sambódromo?

- Ousei dizer que o sambódromo era um erro arquitetônico e ousar falar assim da obra de Oscar Niemeyer me custou muito. Mas achei absurdos os buracos entre uma arquibancada e outra, hoje corrigido. E o absurdo das grandes arquibancadas de um lado e nada do outro, um paredão. Carnaval precisa da triangulação perfeita: público na arquibancada de um lado, de outro e, no centro, o desfile. Isso é que dá uma troca de energia. Também condenei a praça da Apoteose, que chamava de praça do Apocalipse. Como abrir um desfile que era um cortejo? Corrigiram isso com as cadeiras. Ou seja, eu tinha razão!

- O desfile é um espetáculo para a TV ou para quem paga ingresso?

- Por mais tecnologia que se absorva, jamais a televisão transmitirá a verdadeira festa. A TV não transmite o calor humano. Este só se tem no Sambódromo. Por isso é preciso se criar condições de que o povo possa ter mais acesso ao desfile.

- O senhor põe um homem voando no desfile mas não descuida das questões sociais...

- Estamos no ano de 2001, em plena era de Aquário, com o avanço tecnológico já colocando o homem no espaço. Isso devia nos encher de alegria, e no entanto, não enche. Quando nós olhamos em volta aqui no Rio, no Brasil, ainda vemos miséria, violência, corrupção... Fiquei horrorizado ao ver, no depósito de Gramacho, em Caxias, pessoas esperando caminhões despejarem lixo, disputando aquilo com ratos, urubus. É uma cena dantesca, nunca imaginei ver. Foi esse contraste que levei para a avenida.

- Uma crítica à exclusão?

- Havia um carro, inspirado num poeta, que retratava a Idade Média, que ele compara à nossa Idade Mídia. O que estamos vivendo senão o poder temporal, nossos reis, em seus palácios, lutando entre si enquanto o povo sofre com desemprego, violência?

- Como acredita que isso possa mudar?

- Se a ciência, a tecnologia não resolveu o problema humano, é preciso procurar um terceiro caminho. Acredito que somente com a espiritualidade, com o pensamento mais avançado dos homens iluminados, os profetas, como o Gentileza que disse: ''O homem do futuro será o homem gentil porque gentileza gera gentileza, amor, sabedoria e beleza''. O profeta pode ser um homem do povo, um homem tido como louco.

- O desfile das escolas tinha uma tradição até o senhor lhe dar imponência e decretar que ''quem gosta de miséria é intelectual''. Agora prega a simplicidade?

- Procuro verdades em que acredito.

- Mesmo através do carnaval?

- Só através do carnaval

- O senhor foi um dos primeiros a usar destaques quase nus. Como vê a proliferação das chamadas siliconadas, turbinadas, purpurinadas e sarados?

- Da primeira vez em que usei nu na avenida, remetia à cultura negra. Nem estavam de corpo de fora, mas com uma malha cor-da-pele. O seio na cultura africana é respeitado como órgão de amamentação, de nutrição. No entanto, na nossa cultura, peito é indecência, é sacanagem. O corpo, no Ocidente, virou pecado. A cultura cristã, que criou coisas magníficas, imprimiu o pecado, a culpa.

- Qual o sentido da nudez hoje?

- É o pecado manipulado, transformado em objeto de marketing. A mulher desnuda, a mulher bunduda, está em todos os lugares...

- Chegamos ao limite?

- Acredito em milagres, ou coisas divinas. A palavra divina vem de advir. A Era de Aquário promete ser a era do amor. Estamos saindo de um período de trevas e entrando num período de luz. Vejam o mapa do Brasil. Sua forma é de um grande coração. Deveríamos estar irradiando energias puras, positivas. No entanto este coração de cabeça para baixo, desequilibrado, tem a forma de uma grande bunda. Quando expurgarmos nossas mazelas, tudo que está pesando, invertendo esse coração, vai acontecer o equilíbrio. O artista, e me incluo, tem essas visões que não são imediatistas, mas que são possíveis, lógicas.

- Quando o carnaval deixará de ser apenas uma festa de dois dias?

- Uma alternativa é atrair o público para esta região do porto criando, quem sabe, um museu do carnaval. Há 25 anos faço carros e, logo depois do carnaval destruo. Eu e todos os carnavalescos! Acaba, destrói, porque a cabeça de quem governa está invertida, como o coração do mapa.

- O senhor se considera maldito?

- Não. Mas lamento ter sido perseguido pela esquerda, pelos intelectuais, quando fui para a Beija-Flor. Estava no Salgueiro em 1974. Enquanto isso, a Beija-Flor, desde 1973, começou a fazer enredos apoiando a ditadura. Fez Mobral, O grande decênio e até Brasil ano 2001. Os intelectuais odiavam a escola e, naquele período, muitos foram embora, alguns exilados. Fui para a Beija-Flor em 1976 e mudei tudo. Quando voltaram, continuaram odiando sem sequer tentar saber quem eu era e qual a minha história. Consegui enganar os militares dizendo que faria um enredo apoiando um projeto do governo, a Zooteca, e construí o enredo sobre o jogo do bicho. Mas não se davam conta. Chegaram a me tirar pontos escrevendo na justificativa: ''jamais darei dez para uma escola que fez elogio da Revolução''. Não me acho maldito, mas quero explicar como se sofre uma injustiça. Paguei pelos pecados da Beija-Flor.

- E para 2002, qual o enredo?

- Ainda não está escolhido. Tenho vários e isso passa por uma peneira.

- O debate é democrático?

- É uma discussão comigo mesmo, embora também tenha a participação da diretoria.

- Qual o segredo para fazer de uma pequena escola, como Beija-Flor, Viradouro e Grande Rio, uma grande escola?

- É trabalhar, e esse trabalho leva algum tempo. Pelo menos três anos. É trabalhar a organização. A organização da harmonia, da diretoria, das alas, até dos empurradores de carros. É um trabalho que leva algum tempo.

- O senhor é o mesmo em qualquqer escola?

- Ah, não, mudo completamente. Muda a comunidade, a minha cabeça, porque... é toda uma conjuntura. Uma das coisas que procuro mais exercitar é a reciclagem. Nosso corpo se renova, inteiro, a cada sete anos. E uma escola é como o corpo. Seus órgãos são seus componentes e cada um tem sua função.

- Inovar, para o senhor, é uma obrigação?

- Sim! Não admito fazer um trabalho novo em cima de uma idéia antiga. É criatividade sempre. Aliás, se você se repete, já está perdendo ponto.

- O senhor continua sendo matriz de inovações?

- Há um aproveitamento muito grande de idéias e fórmulas. Hoje o carnaval tem uma fórmula. Mas não peguei essa fórmula. Tive que inventá-la. Antes, os destaques vinham no chão, eu os botei em cima de carros.

- Acredita na formação de discípulos?

- Tenho pessoas na equipe. Agora, em criação, é difícil. É muito individual.