Jornal do Brasil

Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

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Aedes transgênico?

Especialistas explicam porque o mosquito geneticamente modificado não é a solução para acabar com a dengue

Jornal do BrasilLuisa Bustamante

Parece o anúncio do fim da luta contra uma das doenças tropicais que mais preocupam a saúde pública: em Juazeiro, na Bahia, começaram os testes com o aedes aegypti transgênico, versão do mosquito transmissor da dengue que poderia diminuir drasticamente a incidência da doença. Para alguns especialistas, no entanto, não é bem assim – eles acreditam que a medida envolve muitos gastos e dificilmente poderá chegar a uma solução.

A esperança do projeto está no mosquito solto no ambiente. Importada pela empresa inglesa Oxitec, a espécie transgênica é capaz de produzir filhotes que morrem antes de chegar à vida adulta, quando poderiam transmitir a dengue. A pesquisadora Margareth Capurro, do Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo (USP), explica que o projeto está na sua terceira fase, e que são liberados 33 mil mosquitos por semana no bairro de Itaberaba, na cidade baiana. Desde o início dos testes, até agora, foram soltos quase meio milhão de mosquitos modificados. Os dados são da Moscamed, instituição encarregada de testar o mosquito aqui no Brasil, junto com a USP. 

Segundo o infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maulori Curié Cabral,  um dos aspectos a que os pesquisadores devem ficar atentos  é justamente a capacidade do aedes transgênico de competir com os mosquitos selvagens pela fêmea.

Aedes transgênico
Aedes transgênico

– É fácil fazer a fêmea copular dentro do laboratório, onde sua única opção é o macho transgênico – critica. – Mas na natureza é diferente: os mosquitos fazem uma nuvem perto dos criadouros, por onde a fêmea passa e escolhe o macho com quem vai cruzar. Quem garante que ela vá cruzar com o aedes de laboratório? Embora os machos estejam disponíveis, quem escolhe é ela.

Mesmo assim, Margareth Capurro garante que os pesquisadores já encontraram ovos resultantes do cruzamento da espécie transgênica com as fêmeas selvagens. A Moscamed estima que, do total de mosquito liberados até hoje, apenas 3% conseguiram copular. 

Segundo Carlos Fernando de Andrade, professor do Departamento de Biologia Animal da Universidade de Campinas (Unicamp), o projeto é uma desculpa para aumentar os investimentos em pesquisas.

– O Aedes é muito fácil de se criar em laboratório, e é um famoso inimigo nosso – argumenta. – Inventar novidades para seu controle acaba sendo um atrativo aos cientistas que justificam suas verbas de pesquisa, mesmo que os resultados reais sejam muito improváveis, ou até impossíveis.

Segundo Aldo Malavasi, diretor da Moscamed, desde o início do projeto, em julho do ano passado, até agora, os gastos somam cerca de 300 mil reais. A estimativa é de que, até a conclusão do estudo, em abril de 2012, os investimentos cheguem a 1,5 milhão de reais.

– Como este é um projeto-piloto, ainda não temos ajuda financeira da máquina pública  explica. – Mas solicitamos aportes públicos para tocar a pesquisa: fizemos três pedidos de ajuda, um para Secretaria da Saúde da Bahia, outro para a Secretaria de Ciência e Tecnologia e também para o Ministério da Saúde. 

Riscos

Para Maulori, o projeto vai contra as campanhas de erradicação dos focos de dengue, já que os mosquitos transgênicos precisam dos criadouros para se acasalar.

– Isso me parece uma maneira de dizer para a população continuar tendo criadouros, já que o problema da dengue os pesquisadores vão resolver – explica. – É um empecilho para educar as pessoas a acabarem com os focos da doença, porque, sem foco, não tem fêmea para copular.

Já Carlos Fernando de Andrade, acrescenta que o projeto também pode colocar em risco o bioma da área onde os mosquitos são liberados.

– Essa liberação dos mosquitos em Juazeiro é irresponsável – protesta. – O aedes modificado pode fecundar fêmeas da própria espécie, mas também pode acabar cruzando com outras especies parecidas, podendo gerar uma prole híbrida. 

A pesquisadora do projeto garantiu, no entanto, que os pesquisadores não observaram nenhum tipo cruzamento fora do normal.

– A probabilidade do mosquito normal cruzar com a fêmea do primo próximo é de 35% – observa Margareth. – Acreditamos que a chance do cruzamento do aedes transgênico com outras espécies é ainda menor, nem consideramos essa possibilidade.

O professor chama atenção, ainda, para o fato de que esses programas só funcionariam em lugares isolados, como em ilhas, por exemplo. 

– É maluquice tocarem esse projeto em ambientes com circulação de pessoas, como em Juazeiro – sustenta. – Todo dia vai chegar alguém com a larva em um vaso de planta. Tem entrada e saída do mosquito todos os dias.

Tags: Bahia, aedes, juazeiro, luisa bustamante, oxitec, transgênico

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