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Terça-feira, 28 de Março de 2017

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Mauro Santayana: Coisas da Política

Jornal do BrasilMauro Santayana

O Peru na encruzilhada

O Peru é o mais  enigmático dos nossos vizinhos. Alguns de seus intelectuais, dos mais vigorosos da América Latina, foram dos primeiros a “pensar” as contradições de nossos povos. José Carlos Mariátegui se distinguiu como o mais importante marxista do continente, ao examinar as contradições de seu país, com seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Romancistas como Ciro Alegria, de El Mundo es ancho y ajeno, José Maria Arguedas, autor do vasto painel de Los rios profundos e, mais recentemente, Vargas Llosa, com Conversación en la catedral, não são menos importantes. Eles mostram a humanidade sofrida – rica em história, marcada pela dupla identidade, indígena e europeia, além da ponderável presença negra e asiática – da inquieta nação amazônica e andina.

O Peru foi o primeiro país a ensaiar, com Victor Haya de La Torre,  o sonho do socialismo. Seu partido – Aliança Popular Revolucionária Americana – fundado no México, em 1924,  propunha ação internacional em toda a Indo-América, ou seja, em todas as nações do continente, do México ao Chile, que ainda mantinham forte presença das populações autóctones da cordilheira. Haya de La Torre preferia ação mais moderada, enquanto seu companheiro de mocidade, o imenso autodidata Mariátegui,  criava o Partido Comunista Peruano.

Nenhuma obra de ficção – com forte presença antropológica – foi mais poderosa na análise das contradições andinas do que a de José Maria Arguedas. Privilegiado por haver vivido na cordilheira e, durante algum tempo da infância, apenas com índios e mestiços, ele expõe, como nenhum outro autor latino-americano, o contraditório mundo dos altiplanos e encostas das grandes montanhas, com o conflito permanente entre a visão ameríndia da vida e aquela imposta pela cultura europeia. Arguedas acrescenta à sua obra maior, Los rios profundos, novelas menores, mas nem por isso menos poderosas, sobretudo na denúncia do imperialismo norte-americano e do latifúndio, como Todas las sangres, e El zorro de arriba y el zorro de abajo, além de artigos jornalísticos e estudos de etnologia.

É este povo peruano que vai domingo às urnas. De um lado, o candidato de centro-esquerda, Ollanta Humala e, do outro, a filha do sanguinário, corrupto e entreguista Alberto Fujimori, que se encontra preso, condenado pela justiça de seu país. As últimas notícias diziam da inquietação do “mercado” (sempre os mesmos) com a possível vitória de Humala. Para os banqueiros e seus sequazes, o destino do país não importa. Não importa a democracia, com o estado de direito e a liberdade das pessoas, mas, sim, os lucros do capital financeiro.

Há uma semana, a vitória da filha de El Chino  eram favas contadas. Diante do perigo de que Fujimori  (como fazem os grandes narcotraficantes com seus negócios) viesse a governar o país a partir da prisão, e da possibilidade de que a filha conseguisse indultá-lo – houve uma súbita mobilização nacional. Pessoas sensatas, ainda que não de esquerda, como é o caso de Vargas Llosa, manifestaram-se a fim de evitar a tragédia política. Nas últimas horas, cresceu a esperança de que Humala vença o pleito.

O que é mais estranho na atualidade peruana é a atitude do atual presidente, Alan Garcia. Garcia herdou de Haya de La Torre o Partido Aprista Peruano, vindo da Apra, fundada por Haya de La Torre e que fora uma bandeira da unidade latino-americana sob um projeto de socialismo libertário. 

A conversão de Garcia à direita, fenômeno muito comum entre os que se elegem pela esquerda e logo se entregam aos antigos adversários, faz, no caso do Peru, lembrar verso poderoso do maior poeta do país, o comunista César Vallejo, em poema escrito em 1937: “Acaba de pasar, / sin haber venido”.

Tags: alan garcia, fujimori, peru

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