Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

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Entrevista | Jean Malpas | O valor da diferença

Psicólogo americano veio ao Rio orientar terapeutas e explicou os desafios dos casais homossexuais

Jornal do BrasilLuisa Bustamante

Depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a favor do reconhecimento da união entre casais homossexuais, os relacionamentos homoafetivos têm menos uma barreira a vencer contra o preconceito. Mas até que ponto um relacionamento gay é diferente do heterossexual?

Em boa hora, o especialista e psicólogo norte-americano Jean Malpas veio ao Brasil para um workshop sobre casais e famílias LGBT no contexto terapêutico, no último fim de semana. Em entrevista ao JB,  ele comentou a decisão do Supremo Tribunal Federal, contou quais são os desafios dos casais homoafetivos e explicou porque a sociedade tem tanta resistência às diferenças.

 Quais são os maiores desafios dos casais LGBT hoje?

Diversidade
Diversidade

Pesquisas já mostram que casais homoafetivos convivem com as mesmas dificuldades que os heterossexuais: intimidade, monogamia, famílias de origem, criação dos filhos etc. O que é específico dos casais LGBT, como minoria, é encarar, além disso, adversidades estruturais, como a ausência de reconhecimento legal do relacionamento ou a falta de apoio da família e da comunidade. 

O Brasil reconheceu a união de casais homoafetivos.

É uma ótima novidade! Fico muito feliz pelo país em si e pelos casais LGBT que vivem aqui. O Brasil está se juntando a um número de países, como a Argentina, a Espanha e outros, que estão dando o exemplo para o resto do mundo. É um sinal de progresso social e uma necessidade para os casais cujo amor e vida merecem ser preservados e protegidos.

A terapia de casal com homoafetivos é diferente?

As teorias e técnicas clínicas são geralmente as mesmas. Mas, além disso, os terapeutas precisam saber de que toda pessoa LGBT tem um passado e uma infância em que se sentiu diferente dos outros. É fundamental explorar essa sensação de ser “o outro” e como isso influencia nas crenças que os gays e lésbicas têm a respeito dos relacionamentos e do amor. Também é importante mostrar ao casal que sua habilidade de enfrentamento à sociedade pode servir de ferramenta para suas próprias relações.

Há alguma coisa que o sr., como terapeuta, tenha percebido em comum nos casais homossexuais?

O amor, a intimidade e a construção de uma família são partes maravilhosas e desafiadoras na vida dos homossexuais. Gays e lésbicas mostram o mesmo compromisso com os seus relacionamentos. Eles debatem muito sobre como criar seus filhos e como dar às suas famílias a sensação de segurança e pertencimento à uma comunidade. Vemos em pesquisas que gays e lésbicas tem níveis similares de satisfação e longevidade nos relacionamentos, mesmo com muitos obstáculos sociais.

Quando um casal LGBT cria um filho, chega o momento em que a criança se pergunta por que tem dois pais ou duas mães. Qual é a melhor orientação?

Na minha experiência, as crianças raramente têm problemas com o fato de terem dois pais ou duas mães. A melhor coisa é mostrar a elas, desde cedo, que há muitos tipos diferentes de família. Famílias com apenas uma mãe, com mãe e pai, com duas mães, com dois pais, famílias criadas por avós. Aprender a ver o mundo como uma complexa mistura de culturas os prepara para a realidade. Também é de muita ajuda para pais gays e mães lésbicas e seus filhos, conviver com casais iguais, para que os filhos não se sintam sozinhos nesta situação. Nos Estados Unidos, há muitos grupos em que filhos de pais homoafetivos podem se encontrar, fazer atividades divertidas juntos e ter a sensação de pertencer a uma comunidade.

A sociedade está aprendendo a conviver com as diferenças?

Está na natureza humana a atração pela diferença. Ao mesmo tempo, lutamos contra ela. Criamos bodes expiatórios que carregam o peso de serem diferentes. Espero que consigamos ver que todos somos diferentes, e que nenhum grupo específico merece ser alvo dos nossos medos ou falta de conforto.

Tags: homossexuais, jean malpas, luisa bustamante, psicólogo

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