Jornal do Brasil

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

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Se o meu fusca falasse...

Para expiar a dor pela perda de Laranjinha, seu carro roubado em 2008, Camila Rhodi criou uma performance em que leva espectadores para um passeio pela cidade. No Oi Futuro, serão exibidos vídeo e exposição que contam a história de amor da atriz por

Jornal do BrasilRachel Almeida

Teatro em espaços não convencionais já virou hábito há anos, mas representar e dirigir ao mesmo tempo ainda pode ser considerado um tanto exótico. Só que faz todo o sentido na performance A dona do fusca laranja, que estreia amanhã no Oi Futuro Flamengo. Afinal, a encenação tem como protagonista o carro-título, um xodó  da atriz Camila Rhodi, roubado em 2008. A história sem final feliz do  Laranjinha é o pretexto para que a artista fale sobre a perda, de maneira mais ampla. 

– O meu trabalho é autoficção, ou seja faço ficção a partir da minha própria vida. Falo das escolhas que me fizeram ser quem sou: atriz, solteira...  E, nesse processo, ganhei muita coisa e perdi tantas outras  – explica Camila, que continua a experiência narrativa iniciada com o espetáculo A filha da chacrete, de 2008, já que sua mãe foi a chacrete Rony Rhomberg. 

O projeto, que ganhou dramaturgia de Jô Bilac (vencedor, como Melhor Autor, da última edição do Prêmio Shell) e direção de Fábio Ferreira, tem várias etapas. A primeira é o passeio no fusca propriamente dito.  Só que apenas três espectadores por dia terão o privilégio de sair  pela cidade a bordo do Laranjinha fake (a produção comprou um fusca marrom de 1972 e fez uma reforma de dar inveja à equipe do Lata velha, quadro do programa Caldeirão do Huck.  O veículo ficou com a cara do antecessor roubado). Às 17h de sexta, sábado e domingo, os três espectadores do dia – que pegarão senhas meia hora antes no Oi Futuro – farão um trajeto de cerca de uma hora pelo Centro e pela Zona Sul, durante o qual a atriz encenará uma parte da sua história de vida e da relação com o fusca.  São três percursos e três  narrativas diferentes, de acordo com o dia de espetáculo.

Saudade – Um fusca marrom foi reformado para parecer com o antigo carro de Camila
Saudade – Um fusca marrom foi reformado para parecer com o antigo carro de Camila

– Às sextas, será encenado O caminho da felicidade, em que passeio por Santa Teresa e Paineiras, um trajeto que eu costumava fazer com o fusca – explica a performer. – Aos sábados, será O dia fatídico, em que passo pelo Aterro, Praça

Tiradentes, Lapa... Relato o dia em que o carro foi roubado, enquanto assistia a um show no CCC (Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes). Domingo é o Dia do casamento, quando conheço o Laranjinha.

A equipe do Jornal do Brasil teve a chance de conferir trechos de O dia fatídico pela cidade. O percurso (e a encenação) é feito ao som de canções ligadas ao universo afetivo de Camila, e que realmente tocavam no seu fusca 73, comprado em 2006, de um amigo, por R$ 4 mil. Uma semana antes de fechar negócio, ela já havia admirado de longe sua paixão  quatro rodas pela janela de um apartamento no Flamengo.

Na performance do dia, passamos pelo lugar onde  a motorista viu  Laranjinha pela primeira vez, tudo aquilo que sentiu ao descobrir o roubo do carro, o perrengue passado na delegacia e até uma reflexão sobre sua (estranha?) ligação com um veículo automotivo. As histórias   foram relatadas a Jô Bilac, colega da  Escola de Teatro Martins Pena, que fez a dramaturgia final. Algumas delas, inclusive, já tinham sido postas no papel por Camila. Antes de tudo começar, no entanto, os espectadores têm que responder a certas perguntas.       

– Topa fazer cinema? Topa virar cineasta? – indaga Camila antes de o público  embarcar em seu carro.

Explicamos: a partir das 19h, quando os passageiros já foram deixados no Oi Futuro, começa uma jam session, com performance em vídeo de Ricky Seabra. O artista vai mesclar imagens do passeio do dia com depoimentos sobre o fusca e  outras cenas pré-gravadas. Ao mesmo tempo, Siri, artista sonoro, faz sua apresentação. E a Camila nessa história toda?   

 – Eu estaciono o carro e fico em um ponto da cidade falando com o público ao vivo via Skype – explica a performer, que também interage com os transeuntes.

Depois da exibição de imagens, que poderá ser acompanhada por qualquer pessoa que esteja no Oi Futuro das 19h às 20h, há uma terceira etapa. É quando Camila Rhodi estaciona o fusca em frente ao Oi Futuro para uma performance

destinada a 50 pessoas. O cenário é como um memorial afetivo, composto por fragmentos do fusca (para-choques, retrovisores, paralamas, volante, capô etc). A atriz se encaixa num box, na parede de exposição, para  narrar vários momentos vividos pelo  fusca a partir das  peças do veículo. Haverá também textos falados e gravados, de  e-mails recebidos por ela,  que serão lidos pelos próprios autores e exibidos pelas pequenas três telas localizadas junto à exposição. Parece confuso? 

– Foi uma das maneiras que encontrei para exorcizar a perda do Laranjinha – explica a atriz. – Estou usando um carro praticamente igual a ele, mas não é o mesmo. Durante muito tempo, chorava só ao avistar um fusca na rua. O que significa esse meu apego a algo inanimado? Egoísmo, carência? Pode ser. Mas conheço casos piores. De gente obcecada pelo telefone celular, com atração sexual por um socador de alho, o sentimento maternal por uma adega de vinho, pelos cristais do casamento da vovó...

Pois é, a ideia é embarcar nessa viagem de Camila, e torcer para que ela não seja uma barbeira no trânsito...

Oi Futuro. Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo (3131-3060). De 6ª a dom.,  17h (1° Momento: três passageiros passeiam com a personagem central da história). Duração: 1h. Grátis. 19h (2° Momento: jam session com performance musical de Siri, performance em vídeo de Rick Seabra e a exposição O Museu do Fusca). Duração: 1h. Grátis. 20h (3° Momento: Performance-instalação A dona do fusca laranja). Duração: 50 min. Grátis. Até 29 de maio.

Tags: camila rhodi, exposição, fusca, rachel almeida

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