Jornal do Brasil

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Esportes - JB na Copa

Cientistas políticos comentam repercussão da eliminação do Brasil

Eles rebatem tese de que derrota da Seleção influenciaria retomada das manifestações

Jornal do BrasilLouise Rodrigues

A derrota da seleção brasileira para a Alemanha na Copa do Mundo ainda repercute entre os torcedores. Com a proximidade do fim do Mundial, agravada pelo fim do sonho do hexacampeonato, o possível retorno das manifestações divide especialistas. O jornal espanhol El País, por sua vez, publicou uma reportagem afirmando que o Brasil ficou anestesiado durante o campeonato e que a eliminação nas semifinais influenciaria na retomada das manifestações. O Jornal do Brasil ouviu cientistas políticos para medir até que ponto a derrota da seleção brasileira pode reacender as manifestações públicas e passeatas.

Para o sociólogo Paulo Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o que aconteceu durante a Copa do Mundo foi uma mudança de foco. “O povo brasileiro é apaixonado por futebol. É evidente que o foco seria a Copa do Mundo. Os protestos podem voltar ao fim da Copa do Mundo devido à mudança de foco para as eleições e outras questões que virão. Durante a Copa, a população ficou focada e não anestesiada. É importante lembrar que os protestos também não pararam totalmente durante o Mundial, só não tiveram eficácia. Mas não existe nenhuma relação direta entre o resultado da Copa do Mundo, as eleições e as manifestações sociais”, defendeu.

O cientista político da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira,  acredita que “o elemento fundamental das manifestações foi o assassinato do cinegrafista da Band [Santiago Andrade]. Depois isso, o movimento refluiu e a simpatia por ele está menor. Quem está nas ruas hoje não é a massa, são pequenos grupos e sindicatos”. Perguntado sobre a possibilidade da retomada dos protestos após o resultado adverso da Copa do Mundo, o cientista político compara: “Por que a derrota da campeã mundial [Espanha] não acordou o povo para ir para as ruas protestar contra a transição real sem plebiscito? Por que no Brasil tem que ser diferente?”. Sobre a matéria publicada pelo El País, Francisco foi crítico: “O El País está totalmente enganado, fazendo sociologia de baixo nível. Ele está querendo dizer que vai haver uma explosão”. 

Já para cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, “podemos dizer que, durante o Mundial, o foco mudou. O brasileiro já é apaixonado pela seleção e a Copa do Mundo. Tinha dias com quatro jogos, por exemplo. O foco era esse”. Ricardo acredita que a possibilidade da retomada dos protestos não pode ser totalmente descartada, mas não terá tanta força quando em 2013. “Em primeiro lugar é bom lembrar que durante a Copa algumas categorias continuaram em greve. Agora haverá uma retomada da visibilidade das manifestações. Contudo, como vimos em junho do ano passado [2013] dificilmente veremos de novo porque houve um refluxo devido à violência e também uma fragmentação devido ao período eleitoral”, analisa. 

Outro ponto levantado pelo cientista político Ricardo Ismael é que “em junho não havia a possibilidade de mudança, não estávamos em período eleitoral. Agora o processo eleitoral vai ganhar mais força”. Sobre a influência do resultado da Copa do Mundo nas eleições, Ricardo analisa: “o Palácio vinha trabalhando com a ideia do Brasil ganhando o Mundial. Se fosse assim, a Dilma entregaria a taça e isso correria o mundo todo, seria mais uma semana de festa e tudo isso formaria um impulso importante. Esse cenário foi abortado com a derrota para a Alemanha. Outro aspecto é que, na verdade, o brasileiro teve uma grande decepção. Então o povo vai retomar sua rotina depois de um mês atípico de feriados e euforia. Tudo volta ao normal, trânsito caótico, filas, hospitais públicos... o mesmo cotidiano enquanto todo mundo carrega a essa decepção da derrota. A curto prazo esse resultado pode refletir no processo eleitoral, mas não vai definir a eleição. O problema vai ser maior nos 15 primeiros dias”.

Tags: ALEMANHA, brasil, cenário, copa do mundo, jogo, manifestações, política, sociólogo

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.