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O Lead Belly Project de Adam Nussbaum

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Huddie Ledbetter (1888-1949) - o Leadbelly ou Lead Belly - é apresentado ou lembrado como um dos primeiros bluesmen a preencher o gap entre as audiências negras e brancas, com a sua voz e a sua guitarra de 12 cordas. Eventual companheiro do também icônico Blind Lemon Jefferson, Leadbelly foi a personificação da transição do blues rural para o urbano. Mas era também um homem violento. Chegou a ser condenado por assassinato, e cumpriu pena na prisão estadual de Angola, na Louisiana, onde foi gravado para a Biblioteca do Congresso, em 1933, pelo folclorista Alan Lomax. Os registros feitos por Lomax do blues em seu estado mais puro foram reproduzidos em discos que influenciaram guitarristas de jazz e de rock, como Eric Clapton e Bill Frisell, Bruce Springsteen e Steve Cardenas.

Baterista, sax e duas guitarras revivem a música do lendário bluesman

Mas a personalidade e a temática de Leadbelly também cativaram jazzmen contemporâneos não guitarristas, como fica patente no álbum The Lead Belly Project (Sunnyside), registro de abril do ano passado feito num estúdio do Brooklyn, por iniciativa do baterista Adam Nussbaum, com o apoio do saxofonista, arranjador e professor Ohad Talmor, muito ligado ao venerável Lee Konitz. Mas é claro que as guitarras não poderiam ficar de fora desse projeto. E as 12 cordas de Leadbelly estão representadas pelas seis cordas de Steve Cardenas e as outras tantas de Nate Radley.

Adam Nussbaum, 62 anos, integra o primeiro time dos bateristas do jazz contemporâneo há mais de três décadas, desde que se destacou em pequenos conjuntos ao lado dos guitarristas John Scofield e John Abercrombie (1944-2017). Da sua extensa discografia constam associações com o saxofonista Dave Liebman, o trompetista Kenny Wheeler e a pianista Eliane Elias, dentre outros músicos de grande prestígio.

De acordo com as notas de apresentação de The Lead Belly Project, as 11 faixas foram gravadas num único dia, “com mínima direção ou música escrita, provando uma vez mais que grandes músicos não precisam de material complicado” para fazer “música experimental, concisa e, sobretudo, honesta”.

Dos títulos do repertório do imortal blues singer selecionados por Nussbaum e pelo saxofonista Talmor os mais conhecidos são Goodnight Irene (4m45), Old Riley (5m40), Black Betty (5m25) e Bring me a little water, Sylvie (4m25). O baterista-líder contribui com dois originais: Insight, enlight (2m55) e Sure would baby (5m10).

Em All About Jazz, Dan McClenaghan assinalou: “Leadbelly foi um dos mais suaves, mais polidos, artistas de blues do Delta, sendo o seu som menos 'cru' do que o de Robert Johnson ou de Son House. Mas é interessante observar que Nussbaum e seus pares preferiram ressaltar o lado mais rude de Leadbelly na interpretação de algumas de suas mais famosas peças”. E, realmente, a bateria e os twangs das 12 cordas aquecem sem parar o sax tenor de Ohad Talmor, sobretudo em Black Betty.

(Black Betty e a faixa inicial, Old Riley, podem ser ouvidas, na íntegra, em: sunnysidezone.com/album/the-lead-belly-project)



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