Jornal do Brasil

Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018 Fundado em 1891

Jazz

Os Grammy winners do jazz

Luiz Orlando Carneiro

A carreira do pianista-compositor Billy Childs, 60 anos, atingiu o topo de visibilidade no último domingo. O seu Rebirth (Mack Avenue) foi proclamado o melhor álbum de jazz instrumental de 2017 na badalada festa do 60ª Grammy, realizada no Madison Square Garden, Nova York.

O título do CD é bem apropriado para marcar uma espécie de renascer de um jazzman que chamou a atenção da crítica especializada no início da década de 1990, numa série de quatro registros para o selo Windham Hill, com destaque para Portrait of a Player, de 1992, em trio com Tony Dumas (baixo) e Billy Kilson (bateria). Em 2006, Childs chegou a ganhar um “gramofone de ouro” na categoria “melhor composição instrumental”, no caso Into the light, do álbum Lyric: Jazz Chamber Music (Lunacy Music), interpretada por um sexteto.

Billy Childs, Cécile Salvant e Christian McBride são novamente premiados
Billy Childs, Cécile Salvant e Christian McBride são novamente premiados

Em Rebirth, o pianista lidera um quarteto básico com três outros músicos de prestígio: Steve Wilson (saxes alto e soprano), Eric Harland (bateria) e Hans Glawischnig (baixo). Das oito peças da setlist, apenas duas não são de autoria de Childs: Peace (7m25), de Horace Silver, em duo com o saxofonista, e The windmills of your mind (7m10), de Michel Legrand, com o quarteto. Apesar de basicamente instrumental, duas faixas do disco têm vocalistas convidadas: Claudia Acuña, em Rebirth (7m35) e Alicia Olatuja, em Stay (6m).

O selo Mack Avenue está comemorando também as conquistas dos “best jazz albums” de 2017 do Grammy nas divisões de vocalistas e de “large ensembles”, respectivamente, com o duplo Dreams and Daggers, de Cécile McLorin Salvant, e Bringin' It, da big band do grande baixista Christian McBride.

A cantora de 28 anos, nascida em Miami, filha de um médico haitiano e de uma professora francesa, começou a brilhar em 2010, quando venceu a Thelonious Monk Jazz Competition. Em 2016, já tinha levado para casa o mesmo Grammy, por conta do seu segundo CD, For One to Love (Mack Avenue). No último referendo dos críticos da Downbeat (agosto do ano passado) Cécile Salvant foi eleita a melhor vocalista do momento, vencendo as há muito consagradas Dee Dee Bridgewater, Cassandra Wilson e Dianne Reeves. A maioria das faixas de Dream and Daggers foi gravada ao vivo no Village Vanguard – a “catedral” do jazz de Nova York – com o trio Aaron Diehl (piano)- Paul Sikivie (baixo)-Lawrence Leathers (bateria).

Christian McBride, aos 45 anos, fatura o seu quinto Grammy como líder de pequeno conjunto ou da sua big band. Neste seu último álbum agora premiado, ele assina os arranjos de nove das 11 faixas, e impulsiona outros 16 músicos das da “Primeira Liga”, entre os quais os trompetistas Frank Greene e Freddie Hendrix; os trombonistas Michael Deese e Steve Davis; os saxofonistas Steve Wilson e Ron Blake; o pianista Xavier Davis e o guitarrista Rodney Jones.

No 60º Grammy, o vencedor na categoria “best Latin jazz album” foi o pianista-compositor argentino Pablo Ziegler - expoente do chamado nuevo tango, e há muito radicado em Nova York - com o CD Jazz Tango (Zoho Music). Ziegler lidera um trio com Hector del Curto (bandoneon) e Claudio Ragazzi (guitarra) numa seleção de 10 peças, das quais sete de sua autoria. As outras três são joias do imortal Astor Piazzolla: LibertangoFuga y misterio e Michelangelo 70.

(Samples do álbum Rebirth, de Billy Childs, podem ser ouvidos em: billychilds.com/store)

Nelson Tolipan

Este colunista associa-se às manifestações de pesar e de saudade em face da morte do professor Nelson Tolipan, aos 81 anos, dos quais mais de 60 dedicados ao rádio e mais de três décadas à Rádio MEC, onde ensinou uma multidão de ouvintes a ouvir e apreciar o bom jazz. Como escreveu Rose Esquenazi, não se pode falar de jazz na história do rádio no Brasil sem citar Nelson Tolipan, “o mais importante radialista dedicado de corpo e alma a essa manifestação artística e musical”.

A Fundação Nacional das Artes divulgou uma nota de despedida, da qual destaco estes dois parágrafos:

“Além do acervo da própria Rádio MEC, a discoteca pessoal de Tolipan conta com mais de 30 mil títulos. O estilo do radialista era o de uma conversa informal com o ouvinte. Transmitia informações sempre consistentes sobre as músicas: as circunstâncias das gravações; os intérpretes; a versão a ser apresentada; e outras. O programa de Nelson Tolipan ocupou a programação das duas rádios MEC, a AM e a FM e acompanhou toda a carreira do radialista na emissora.

Tanto quanto profissional respeitado, Tolipan era uma figura humana querida por todos. Sempre gentil, educado, atencioso para com quem o cercava. A todo o momento teve uma palavra de incentivo para os colegas. Sempre foi acolhedor, convidando, recebendo e entrevistando, com inteligência, músicos e profissionais que tivessem relação com os temas que mobilizaram sua vida. Sempre respeitou a inteligência do ouvinte, dividindo informações preciosas em uma conversa fluente e despojada, sem abrir mão do conteúdo que considerava relevante”.

E aí vai, in memoriam, um teaser de um documentário sobre Nelson Tolipan, no seu ambiente preferido (vimeo.com/84888750).

Tags: luiza, maior, maria, nobre, sol

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