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O 'Jewish jazz' do Dr. Edgar Steinitz 

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Lá se vão mais de cinco décadas, o Dr. Denny Zeitlin, psiquiatra recém-formado pela Universidade Johns Hopkins, surpreendeu a cena jazzística. Ele era também um virtuose do teclado, e foi “descoberto” pelo milionário e então manda-chuva da Columbia Records John Hammond, que produziu, em 1964, Cathexis e Carnival - os dois primeiros LPs de uma série de 22 registros como líder daquele que ficou conhecido como Doctor Jazz. Aos 79 anos, o pianista Zeitlin continua ativo. No ano passado, lançou o CD Geisers (Sunnyside), em duo com o baterista George Marsh.

Eis que, de repente, brilha na praça um outro médico-jazzman. Trata-se do Dr. Edgar Steinitz, 65 anos, graduado pela Universidade de Cincinatti, em 1978, especialista em Medicina Física e Reabilitação, e ligado ao Hospital Geral de Tacoma, cidade do estado de Washington, perto de Seattle. E também especialista no clarinete e no sax soprano, além de arranjador, como demonstra no álbum Roots Unknown (Origin Records), já disponível nas lojas virtuais.

Nessa envolvente sessão do que se pode chamar de Jewish jazz, gravada em abril do ano passado, Steinitz tem a seu lado, em formações diversas, o reverenciado David Friesen (tocando um Hemage bass, baixo elétrico muito especial feito sob medida), e outros cinco músicos: Jay Thomas (sax tenor, flauta, trompete ou flugelhorn); Bonnie Birch (acordeão); Julian Smedley (violino, viola); Wayne Porter (bateria); Jeff Busch (percussão).

Médico também especialista no clarinete lança CD Roots Unknown, ao lado de David Friesen

O próprio Dr. Steinitz assim apresenta o seu Roots Unknown, que tem 10 faixas, das quais a mais longa é a suíte Jewish jazz jam (13m): “Espero que se deliciem com tudo que este CD tem a oferecer – soulful jazz com um cerne judaico a honrar a minha herança. Procuro focar numa profunda espiritualidade estimulada por alegres e jubilantes melodias. E, também, às vezes, numa expressão extática de liberdade discrepante de 'raízes desconhecidas' de selvagem opressão”.

O pai do clarinetista e saxofonista era um alemão asquenazim que conseguiu escapar dos nazistas e do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Sua mãe era uma sefardita nascida em Paramaribo, no Suriname, antiga Guiana Holandesa. E o filho Edgar Steinitz faz o seguinte comentário sobre os aspectos étnicos da música que criou para o seu álbum de estreia: “Ao contrário dos refinados gostos dos judeus asquenazins – depois impactados por influências do sul da Europa e dos ciganos - a música sefárdica, em particular a sul-americana, tem um marcado ritmo afro-latino”.

Tudo isso é expresso em linguagem jazzística a partir da peça inicial de Roots Unknown, que é Back to life (4m10), daquele musical O violinista no telhado, da década de 1960. Mas a faixa principal, Jewish jazz jam, sintetiza muito bem o clima geral do álbum, com os arranjos e solos de Steinitz, Friesen & Cia em torno de temas da liturgia judaica, como Rejoice – a parte final da suíte, baseada em Hava Nagila, canção que sempre anima as festas de casamento judaicas.

Liberation (6m45), por sua vez, com solos de clarinete, sax tenor e acordeão, é inspirada em Ma Lecha Hayam, canto celebratório da Páscoa dos judeus. Há ainda, à guisa de interlúdios, três peças de curtíssima duração: Segue 1 (30s) e Segue 2 (35s), em trio, com corneta e sax tenor, respectivamente; May love finds its way to you (1m25), com o líder no clarinete, sem acompanhamento.

(Quem não tem acesso ao Spotify pode ouvir samples de três faixas deste álbum em: rootsunknown.com/cd-track-samples)



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