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Bobo Stenson e a arte do trio

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

Em 1996, quando tinha 26 anos, o pianista Brad Mehldau gravou o primeiro dos cinco volumes da série The Art of the Trio (Warner), em união estável e sempre harmoniosa com o baixista Larry Grenadier e o baterista Jorge Rossy. Esta arte – tão especial no jazz como o quarteto de cordas na música clássica – tinha atingido os níveis mais altos de sofisticação a partir dos reverenciados trios de Bill Evans, desde aquele primeiro (1959-1961) com Scott LaFaro (baixo) e Paul Motian (bateria), até o da década de 1970, com Eddie Gomez (baixo ) e Marty Morell (bateria). Pouco depois, a arte do trio foi enriquecida pelos fascinantes pianistas Keith Jarrett (Gary Peacock, baixo; Jack DeJohnette, bateria) e Fred Hersch (Drew Gress, baixo; Nasheet Waits, bateria).

Esta introdução é para dizer que não se pode deixar de lembrar e de ouvir, com crescente prazer, os trios liderados, há mais de três décadas, pelo underrated pianista sueco Bobo Stenson, 73 anos. Ao comentar o CD Goodbye, gravado pela ECM em 2004 (Paul Motian e Anders Jormin, baixo), o respeitado crítico Thomas Conrad destacou-o como “o maior pianista vivo de jazz nascido fora dos Estados Unidos”.

Pianista sueco é a estrela de 'Contra la Indecisión', primeiro álbum de jazz do ano da ECM

Não foi evidentemente por sorte na vida que Stenson gravou para o selo ECM, de Manfred Eicher, oito álbuns à frente de seus trios, o último dos quais tinha sido Indicum (2012), com o fiel Anders Jormin e o baterista Jon Fält. Na condição de integrante do quarteto do eminente saxofonista Charles Lloyd, o pianista pode também ser apreciado nos seguintes CDs da ECM: Fish out of Water (1989), Notes from Big Sur (1990), The Call (1993), All My Relations (1994) e Canto (1996).

Pois Bobo Stenson retorna às lojas e plataformas virtuais, neste mês de janeiro, com o seu trio habitual, sempre na ECM, no CD Contra la Indecision – título da faixa inicial (4m10) da seleção de 11 peças de uma sessão gravada em maio do ano passado, num estúdio de Lugano, Suíça.

A faixa-título não significa que o novo registro seja uma espécie de manifesto. Trata-se de um tema de Silvio Rodriguez pelo qual o pianista sueco tem particular estima, a julgar por outras canções do músico popular cubano que interpretou em outros álbuns. Mas Stenson cultua mais amiúde a arte de Bill Evans, Keith Jarrett e Fred Hersch, e o legado de compositores eruditos como Bartok e Erik Satie (cuja Élegie é uma das faixas de Contra la Indecision).

Na discografia sempre atualizada do pianista publicada em All About Jazz, Budd Kopman – que também é músico – sintetiza muito bem a arte do trio tal como cultivada por Stenson: “Como líder, ele é um alquimista que extrai, expõe e eleva a essência de uma composição. Sua intensidade é bem reservada, e o impacto resultante de sua música é mais cumulativo do que extravagante (showy). Um solo nunca deve ser muito ruidoso ou rápido demais”.

Essas qualidades estão íntegras em Contra la Indecision, registro de um trio em interação contínua, no qual o contrabaixo (dedilhado ou com arco) do professor Anders Jormin, 60 anos, e a percussão de Jon Fält, 38 anos, são essenciais para a alta qualidade do “produto final”. Sobretudo em faixas cujo clima sônico é particularmente valorizado, como Doubt thou the stars (7m55), Three shades of a house (7m10), Kalimba impressions (3m10) e Hemingway intonations (6m40).

(Quem não tem acesso ao Spotify pode ouvir um sample da faixa-título em: itunes.apple.com/us/album/contra-la-indecisión/1323385874)



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