Jornal do Brasil

Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

Jazz

O imprevisível Roswell Rudd "abraça" Fay Victor

Luiz Orlando Carneiro

No ano passado (9/4), esta coluna comentou e recomendou a improvável associação, em disco, do hoje octogenário trombonista Roswell Rudd – uma das figuras de proa do jazz de vanguarda das décadas de 1960 e 70 – com a vocalista Heather Masse, 32 anos, até então mais conhecida e apreciada como folk singer (CD August Love Song, Red House Records).

Pois o imprevisível Rudd – que foi comparsa de Archie Shepp, Cecil Taylor, Don Cherry e outros ícones do free jazz – gostou tanto da combinação trombone-voz feminina que repetiu a dose. Só que desta feita, ao lado da nova estrela Fay Victor, do Brooklyn, justamente considerada legítima herdeira da incomparável Betty Carter (1929-1998). Sobretudo depois da recepção, por parte da crítica, do álbum Absinthe & Vermouth (Greene Avenue Music, 2013), com Ken Filiano (baixo, voz) e Anders Nilsson (guitarra, efeitos elétricos).

Ícone do trombone lança Embrace, com vocalista do Brooklyn  
Ícone do trombone lança Embrace, com vocalista do Brooklyn  

Do novo registro de Roswell Rudd, intitulado Embrace (RareNoise Records), participam, além da vocalista, o pianista Lafayette Harris e o baixista Filiano. E o trombonista-líder assim falou deles: “Lafayette Harris é um dos melhores acompanhadores com os quais já toquei (…) É como se ele tivesse estado ao meu lado durante toda a minha vida. Kenny Filiano é um virtuose do baixo, principalmente com o arco. E Fay Victor é a minha mais recente descoberta. Fay é um instrumento, uma voz, uma personalidade, um espírito… tudo isso e mais”.

O menu do álbum começa e termina em clima meditativo, com a interpretação pelo quarteto de Something to live for (8m20) – a primeira canção escrita pela dupla Duke Ellington-Billy Strayhorn, em 1939 – e de Pannonica (10m30) - a inesquecível balada composta por Thelonious Monk e dedicada à Baronesa Nica de Koenigswarter (née Rotschild), sua amiga e protetora.

As faixas mais animadas e cativantes do disco são Goodbye Pork Pie Hat (6m40), de Charles Mingus, e Can't we be friends (7m45). A primeira – que Mingus compôs como um “requiem” para Lester Young – é levada em ritmo dançante, de modo inesperado, com impactante improviso em scat singing de Fay Victor. Na recriação do standard, o trombone com surdina de Rudd e a vocalista, mais uma vez em scat, trocam movimentados compassos depois do solo do pianista Harris.

I hadn't anyone till you (7m20), canção de Ray Noble, de 1938, é pretexto para uma outra troca de ideias entre o trombone roufenho de Rudd e a voz de Fay lembrando aquele pathos característico da arte de Billie Holiday. Too late now(11m35), a faixa mais longa do álbum, é tema de um filme de 1951, estrelado por Fred Astaire e Jane Powell, desenvolvido a partir de uma introdução de Kenny Filiano no baixo com arco. House of the rising sun (8m15), uma canção folclórica do Sul dos Estados Unidos (“There is a house in New Orleans, it's called the Rising Sun...”) é interpretada pelas duas “vozes” principais em feitio de oração. Verna Gillis, a mulher de Roswell Rudd, contribui com I look in the mirror (4m40), peça bem swinging, com outro solo em scat de Fay Victor, à la Betty Carter.

(Samples de Embrace em: http://www.qobuz.com/gb-en/album/embrace-various-artists/5060197761332#item)

(As faixas Goodbye Pork Pie Hat e House of the rising sun podem ser ouvidas em:

www.rarenoiserecords.com/jukebox/rvhf/embrace/)

Tags: artigo, coluna, jazz, luiz, orlando

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