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O imprevisível Roswell Rudd "abraça" Fay Victor

Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro

No ano passado (9/4), esta coluna comentou e recomendou a improvável associação, em disco, do hoje octogenário trombonista Roswell Rudd – uma das figuras de proa do jazz de vanguarda das décadas de 1960 e 70 – com a vocalista Heather Masse, 32 anos, até então mais conhecida e apreciada como folk singer (CD August Love Song, Red House Records).

Pois o imprevisível Rudd – que foi comparsa de Archie Shepp, Cecil Taylor, Don Cherry e outros ícones do free jazz – gostou tanto da combinação trombone-voz feminina que repetiu a dose. Só que desta feita, ao lado da nova estrela Fay Victor, do Brooklyn, justamente considerada legítima herdeira da incomparável Betty Carter (1929-1998). Sobretudo depois da recepção, por parte da crítica, do álbum Absinthe & Vermouth (Greene Avenue Music, 2013), com Ken Filiano (baixo, voz) e Anders Nilsson (guitarra, efeitos elétricos).

Ícone do trombone lança Embrace, com vocalista do Brooklyn  

Do novo registro de Roswell Rudd, intitulado Embrace (RareNoise Records), participam, além da vocalista, o pianista Lafayette Harris e o baixista Filiano. E o trombonista-líder assim falou deles: “Lafayette Harris é um dos melhores acompanhadores com os quais já toquei (…) É como se ele tivesse estado ao meu lado durante toda a minha vida. Kenny Filiano é um virtuose do baixo, principalmente com o arco. E Fay Victor é a minha mais recente descoberta. Fay é um instrumento, uma voz, uma personalidade, um espírito… tudo isso e mais”.

O menu do álbum começa e termina em clima meditativo, com a interpretação pelo quarteto de Something to live for (8m20) – a primeira canção escrita pela dupla Duke Ellington-Billy Strayhorn, em 1939 – e de Pannonica (10m30) - a inesquecível balada composta por Thelonious Monk e dedicada à Baronesa Nica de Koenigswarter (née Rotschild), sua amiga e protetora.

As faixas mais animadas e cativantes do disco são Goodbye Pork Pie Hat (6m40), de Charles Mingus, e Can't we be friends (7m45). A primeira – que Mingus compôs como um “requiem” para Lester Young – é levada em ritmo dançante, de modo inesperado, com impactante improviso em scat singing de Fay Victor. Na recriação do standard, o trombone com surdina de Rudd e a vocalista, mais uma vez em scat, trocam movimentados compassos depois do solo do pianista Harris.

I hadn't anyone till you (7m20), canção de Ray Noble, de 1938, é pretexto para uma outra troca de ideias entre o trombone roufenho de Rudd e a voz de Fay lembrando aquele pathos característico da arte de Billie Holiday. Too late now(11m35), a faixa mais longa do álbum, é tema de um filme de 1951, estrelado por Fred Astaire e Jane Powell, desenvolvido a partir de uma introdução de Kenny Filiano no baixo com arco. House of the rising sun (8m15), uma canção folclórica do Sul dos Estados Unidos (“There is a house in New Orleans, it's called the Rising Sun...”) é interpretada pelas duas “vozes” principais em feitio de oração. Verna Gillis, a mulher de Roswell Rudd, contribui com I look in the mirror (4m40), peça bem swinging, com outro solo em scat de Fay Victor, à la Betty Carter.

(Samples de Embrace em: http://www.qobuz.com/gb-en/album/embrace-various-artists/5060197761332#item)

(As faixas Goodbye Pork Pie Hat e House of the rising sun podem ser ouvidas em:

www.rarenoiserecords.com/jukebox/rvhf/embrace/)



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