Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Jazz

O piano sempre cativante de Cyrus Chestnut

Luiz Orlando Carneiro

O pianista Cyrus Chestnut, 54 anos, é uma das mais cativantes personalidades daquela geração de young lions que, no fim da década de 1980, sob a liderança intelectual do trompetista-compositor Wynton Marsalis, passou a reinterpretar amainstream do jazz. Seus dois últimos álbuns em trio tinham sido gravados em 2014 e 2015: Midnight Melodies(Smoke Sessions Records), com Victor Lewis (bateria) e Curtis Lundy (baixo); Natural Essence (High Note), com Buster Williams (baxo) e Lenny White (bateria).

No mesmo selo High Note e com a mesma esplêndida seção rítmica, Chestnut acrescenta à sua discografia o CDThere's a Sweet, Sweet Spirit, uma seleção de 10 faixas registradas num estúdio do Brooklyn, em fevereiro último. Só que, desta vez, como convidado especial, ele conta com o ilustre vibrafonista Steve Wilson em três números, e até com a coloração de um trio vocal feminino em You make me feel brand new (6m05) – uma canção romântica da década de 1970.

No novo CD, Chestnut toca solo, em trio e em quarteto com vibrafonista Steve Nelson 
No novo CD, Chestnut toca solo, em trio e em quarteto com vibrafonista Steve Nelson 

Mas na parte mais substancial da variada setlist, a meu ver, estão as interpretações do pianista-líder em quarteto com Steve Wilson: The little one of all (4m20) e Little B's Poem (4m50), não por acaso peças originais do grande vibrafonista Bobby Hutcherson (1941-2016), que foi partner de Eric Dolphy no antológico álbum Out to Lunch (Blue Note, 1964); e Easy living (8m30), que se tornou um jazz standard graças ao sopro e a voz de excelências como Miles Davis e Ella Fitzgerald.

A faixa-título do novo álbum (5m35) – a última do menu - é uma versão solo de um spiritual, e atesta uma vez mais a devoção de Chestnut às raízes religiosas do gospel. A balada Christina (4m50), assinada pelo baixista Williams é também interpretada sem acompanhamento.

As composições interpretadas em trio mostram o virtuose do piano navegando também com muito engenho e arte nas ondas da música erudita clássica. E que ele jamais se esquece da temática que enriqueceu, na década de 1959, o jazz até hoje dito moderno. Chopin Prelude (6m50), como anotou Scott Yanow em The NYC Jazz Record, é uma “deliciosa peça, levemente swinging, que lembra um pouco Django, de John Lewis (o inesquecível líder do Modern Jazz Quartet)”. Miles Davis e Thelonious Monk são revisitados em recriações fora de série de Nardis (7m30) e Rhythm-a-ning (4m50), respectivamente.

O único tema original de Cyrus Chestnut, CDC (6m20), é levado pelo trio em ritmo que remete a um sambinha dos tempos da bossa nova.

(A faixa Nardis pode ser ouvida em:

soundcloud.com/highnote-savant-records/nardis-from-cyrus-chestnut-theres-a-sweet-sweet-feeling)

Tags: artigo, coluna, jazz, jb, luiz, orlando

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