Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Jazz

JD Allen reafirma sua excelência em 'Radio Flyer' 

Luiz Orlando Carneiro

Na lista dos 40 “Top CDs” de 2016 da JazzTimes, resultante de votação dos principais colaboradores da referencial revista, o terceiro colocado foi o álbum Americana: Musings on Jazz and Blues (Savant), do trio do saxofonista tenor JD Allen (Rudy Royston , bateria; Gregg August, baixo), que fora recomendado por esta coluna logo depois de lançado (27/6/2016).

Comentei então que, aos 44 anos, Allen não era ainda um saxofonista tão íntimo dos jazzófilos como os seus contemporâneos Ravi Coltrane, Joshua Redman, Eric Alexander e Chris Potter. Mas que estava no mesmo nível deles em matéria de técnica e de criatividade.

Pois ele é sério candidato a repetir o feito, este ano, com um novo disco para o mesmo selo Savant, intitulado Radio Flyer – o seu décimo como líder, e o primeiro em quarteto, com o ebuliente guitarrista Liberty Ellman somando-se aos habituais acólitos do saxofonista.

Em novo CD, saxofonista lidera quarteto com o guitarrista Liberty Ellman
Em novo CD, saxofonista lidera quarteto com o guitarrista Liberty Ellman

Ellman firmou seu prestígio como membro do quinteto Zooid, do eminente vanguardista Henry Threadgill, também saxofonista e compositor, e que integrou a Associaton for the Advancement of Creative Musicians (AACM) de Chicago. No ano passado, Threadgill, 73 anos, foi contemplado com o Prêmio Pulitzer da música pelo CD duplo In for a Penny, In for a Pound (Pi Records).

Ao contrário de Americana – que como está implícito no subtítulo é uma série de reflexões mais contemplativas a partir dos blues – Radio Flyer é uma seleção de sete composições de JD Allen desenvolvidas pelo quarteto num clima mais dinâmico, intenso, com muita improvisação, em solos ou interplay, que nos remetem à música hipnótica de John Coltrane e até mesmo àquela fase “harmolódica” de Ornette Coleman.

De acordo com o crítico Kevin Whitehead, o líder-compositor levou para o estúdio peças inéditas que seus companheiros de sessão começaram a gravar sem nenhum ensaio. Delas foram gravadas algumas versões, mas a faixa de abertura, Sitting bull (9m10), é uma first take.

Esta peça, a faixa-título (9m15) e The Angelus bell (6m35) – as três primeiras da setlist – já justificariam especial atenção dos jazzófilos mais exigentes para essa sessão registrada em janeiro último.

Levadas em tempo médio para rápido, com métrica rítmica surpreendente, as composições de Allen são por ele desenvolvidas em solos de trama harmônico-melódica fascinante, que atestam ter atingido o saxofonista tenor o top of his game. Em Daedalus (7m50), a bateria de Royston tem especial destaque, e lança o líder do quarteto num vertiginoso solo de mais de três minutos.

As contribuições do guitarrista Ellman – em contraponto ou solando – e do excepcional tandem Royton-August são fundamentais para que o novo álbum de JD Allen seja recebido e apreciado, até aqui, como um dos melhores lançamentos desta temporada.

(As faixas Radio flyer e Daedalus podem ser ouvidas em: soundcloud.com/highnote-savant-records)

Tags: artigo, coluna, jazz, jb, luiz, orlando

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