Jornal do Brasil

Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Jazz

Peter Bernstein lidera 'four' de ases

Luiz Orlando Carneiro

Em Signs LIVE!  guitarrista brilha ao lado de Brad Mehldau, Christian McBride e Gregory Hutchinson

Em dezembro de 1994, o então promissor guitarrista Peter Bernstein lançou, no selo Criss Cross, o CD Signs of Life, no comando de um quarteto que incluía o pianista Brad Mehldau, o baixista Christian McBride e o baterista Gregory Hutchinson - todos eles ainda na faixa dos 20 anos.

Naquela época, “só fãs dotados de especiais poderes mediúnicos poderiam prever o impacto que os membros do quarteto de Bernstein teriam no desenvolvimento do jazz no decorrer das próximas duas décadas”. Basta lembrar que “Mehldau tinha acabado de formar o trio que logo se tornaria uma referência internacional, depois de seu aprendizado – ao lado de Bernstein – na legendária banda do baterista Jimmy Cobb. McBride começara a ter renome, junto com Mehldau, no quarteto de Joshua Redman, e fizera o seu debut como líder para a Verve poucos meses antes. Hutchinson estava começando a ser notado como membro do conjunto de Roy Hargrove”.

Em 'Signs LIVE!', guitarrista brilha ao lado de Brad Mehldau, Christian McBride e Gregory Hutchinson
Em 'Signs LIVE!', guitarrista brilha ao lado de Brad Mehldau, Christian McBride e Gregory Hutchinson

Estas observações aspeadas constam da apresentação do álbum duplo Signs LIVE!, da etiqueta Smoke Sessions, já disponível nas lojas e plataformas virtuais. Trata-se de um extenso registro desse memorável quarteto – agora um four de ases – feito ao vivo, em duas noites seguidas de janeiro de 2015, no Lincoln Center, em NovaYork.

O repertório do álbum duplo está dividido em 11 faixas, num total de duas horas e meia de duração. A mais longa é Jive coffee (19m); as mais curtas são Resplendor (8m40) e Pannonica (8m45) - esta a imortal balada de Thelonious Monk, que é também reinterpretado pelo quarteto numa fusão de duas outras peças do seu “livro”: Crepuscule with Nellie We see (14m30).

Peter Bernstein pode e deve ser qualificado como integrante da linha de frente da mainstream contemporânea da guitarra jazzística. É, portanto, descendente estilístico de Barney Kessel, Jim Hall, Kenny Burrell e Pat Martino – mestres do fraseado melódico-harmônico, e não da estética sônico-melódica cultivada pelos não menos magistrais John Scofield, Bill Frisell e Pat Metheny.

Em Signs LIVE! o quarteto Bernstein-Mehldau-McBride-Hutchinson atua em constante interplay, sem qualquer preocupação com o tique-taque do relógio, criando música ao mesmo tempo de alto nível técnico e de fácil degustação. Duas composições do líder – a já citada Jive coffee eBlues for Bulgaria (17m55) – constavam daquele álbum de 1994 (Signs of Life) que chamou a atenção da crítica especializada para os então jovens jazzmen.

A interação do conjunto não impede que seus hoje eminentes membros desenvolvam longos e consistentes solos. Em Blues for Bulgaria, por exemplo, tema baseado em cinco notas, o solo do guitarrista chega a quatro minutos e o do pianista Mehldau a quase cinco minutos.

É claro que as 11 faixas da seleção não devem ser ouvidas em sequência, de um fôlego só. Mas apreciadas aleatoriamente, pois – como é sabido - a ordem dos fatores de uma soma não altera o valor do produto. Sobretudo quando o produto é de alta qualidade.

(Quem não tem acesso ao Spotify pode ouvir samples de Signs LIVE! em:

http://www.deezer.com/br/artist/337195)

Tags: artigo, coluna, jazz, jb, luiz, orlando

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