Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Jazz

A ode a Marseille de Ahmad Jamal

Luiz Orlando Carneiro

Em julho do ano passado, quando comemorou o seu 86º aniversário, Ahmad Jamal gravou, num estúdio perto de Paris, o álbum Marseille – uma ode à cidade com a qual o lendário pianista nascido em Pittsburgh mantém uma relação “muito forte”, como ele mesmo proclama.

Em entrevista à revista Jazz Magazine (edição de junho último) Jamal acrescenta: “Marselha é uma cidade única com pulsação própria. É um porto aberto ao mundo, onde se sente o vento dessa liberdade, o espírito de aventura”.

As expressões “pulsação própria” e “espírito de aventura” têm tudo a ver com a música ainda criada por esse octogenário mago do piano, de técnica magistral, senhor do tempo e do espaço, que assim se situa: “Atravessei quatro gerações em matéria de música. Eu era criança no tempo das big bands; adolescente quando chegaram as revoluções de Dizzy Gillespie e Charlie Parker; e continuo vivo na era da eletrônica”.

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Neste mais recente registro para o selo francês Jazz Village – já disponível nas lojas e plataformas virtuais – Jamal não dispensa os seus fiéis escudeiros James Cammack (baixo), Herlin Riley (bateria) e Manolo Badrena (percussão). Mas em duas das três versões da faixa-título conta com as vozes de Abd Al Malik (num recitativo em francês escrito pelo líder) e de Mina Agossi (cantora nascida na França, de ascendência africana).

Vale lembrar que Jamal começou a ficar famoso no fim da década de 1950 quando animava as noites do clube Pershing, em Chicago, e foi apontado por Miles Davis, em declaração pública, como o seu pianista favorito. O repertório dele nada tinha de extraordinário, baseando-se principalmente em standards, como Poinciana ou But not for me. Mas as interpretações desses temas eram verdadeiras recomposições, plenas de ressonâncias e timbres mágicos, e de uma constante tensão entre arpejos românticos e ostinatos surpreendentes.

Neste novo álbum, Marseille, o pianista não deixa de revisitar material melódico bem conhecido como Sometimes I feel like a motherless child(5m45) – que recebe um tratamento mais funky do que o spiritual original – e Autumn leaves (8m45) - com Riley e Badrena aquecendo ainda mais o ritmo dançante, caliente, imposto pelo líder à batida canção, nascida em 1945, na França, com o título de Les feuilles mortes.

Jamal e seus asseclas interpretam, além das versões de Marseille, outros três originais do pianista: a balada I came to see you/You were not there (5m55) e as bem percussivas Pots em verre (8m30), em 6/8, e Baalbeck (6m20).

(A faixa Sometimes I feel like a motherless child pode ser ouvida em: www.youtube.com/watch?=LBTxsnFCR6k)

Tags: artigo, coluna, jazz, jb, luiz, orlando

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